Um paralelo entre Embriagado de Amor e Adaptação, Paul Thomas Anderson, Spike Jonzen, Adam Sandler e Nicolas Cage

E eu poderia ter continuado o título com: e um retrato da timidez e baixa autoestima.
O tamanho do título é proporcional as coincidências casuais (não intencionais) entre os dois filmes. Estes, Embriagado de Amor (Punch-Drunk Love em inglês), do diretor Paul Thomas Anderson e Adaptação do diretor Spike Jonze. Ambos filmes do ano de 2002 — coincidência nº 1.
A segunda coincidência, são seus atores protagonistas. Adam Sandler e Nicholas Cage. Resguardadas as devidas diferenças entre eles, e sem adentrar a fundo na carreira de um ou outro, ambos são atores que carregam uma fama negativa parecida, fruto de más atuações e escolhas ruins de papéis em filmes duvidosos, que os fizeram amargar fracassos desde a última década e sofrer preconceito por parte dos críticos e público mais culto de cinema.
Mas não em 2002
Antes de carregarem esse karma e com prestígio ainda significativo no começo dos anos 2000, eles toparam participar desses filmes, de diretores ainda novatos e promissores em Hollywood: Paul Thomas Anderson e Spike Jonze. Dois diretores que conseguiram se consagrar e figuram hoje entre os mais importantes do cinema norte-americano, com filmografias relevantes. Dois diretores cults™. Nossa coincidência casual nº 3.
E ambos os diretores (embora o roteiro de Adaptação tenha sido escrito pelo Charlie Kaufman e não pelo Jonze), parecem ter conseguido tirar o melhor do Adam Sandler e Nicolas Cage, com personagens — pasme! — praticamente iguais. Nossa coincidência nº 4. Homens solteiros, na casa dos 30–40 anos, solitários, tímidos e com sérios problemas de interação social. E os dois atores corresponderam igualmente com grandes atuações.

Dois filmes consideravelmente underated, que merecem mais sua atenção. Em especial para quem tem interesse na filmografia do Paul Thomas Anderson e para os que eventualmente tenham fetiche no mito Nicolas Cage (sim, essas pessoas existem).
Então fica a recomendação
Embriagado de Amor é uma grande surpresa (positiva) dentro da filmografia do Paul Thomas Anderson. É um filme muito experimental na carreira do diretor e acima de tudo, essencialmente sensorial. Aqui, todo o trabalho fotográfico, com um deliberado jogo de cores, seus planos e enquadramentos é muito sentido pelo espectador, que acaba dominado, seja pelo sentimento de tensão e insegurança que a personagem principal transmite — Barry (personagem do Adam Sandler) passa a maior parte do filme com um terno, como se estivesse sempre preparado para que algo acontecesse, em contraste com a monotonia de sua vida — , seja pelo sentimento de amor que pinta a tela com tons de azul e rosa. ‘’I have a love in my life. It makes me stronger than anything you can imagine’’. Embrigado de Amor é, por fim, uma aula de ótima progressão e libertação da personagem.
Enquanto Adaptação é uma aula de metalinguagem. Provavelmente uma das melhores já feitas no cinema. Um jogo poético e delicado sobre a história de um roteirista (personagem do Nicolas Cage) de cinema que precisa buscar uma trama para seu roteiro — uma adaptação de um livro sobre orquídeas — e sua vida. “What I came to understand is that change is not a choice. Not for a species of plant, and not for me.”

