um anoitecer quebrado

pra uma pessoa partida ao meio.
um céu alaranjado
pra interromper um azul que todos acharam ser eterno
alguém atravessado por um nó
que a impede de dormir
mas que ela insiste em não desatar.
alguém carregando nos ombros um prédio de 15 andares
feito de velhas angústias
assim como carrega no sangue, a voz de seus ancestrais.
rodeada por amores que correm, enquanto ela ainda está aprendendo a andar.
ela recebeu de troco algumas moedas que anos atrás foram suas
mas não tem como reconhecê-las por serem todas iguais.
e o samba mais triste de todos, foi escrito na hora do seu nascimento
mas ele parece bonito demais pra ser sobre ela.
e apesar de já ter chorado a própria morte algumas vezes, até ontem ela era imortal.
hoje ainda não se sabe.
choveu sem parar durante 6 horas
e a madrugada que seguiu dizia fria e insône que no fim as cicatrizes são todas iguais também
e tudo bem ter medo
porque toda vez que o azul muda pra lilás e o lilás pra laranja e o laranja volta a ser azul
quer dizer que você vive.
e é justamente por parecer bonito demais
que ninguém pode duvidar que é sobre você.