Eternas Almas Nuas

Pessoas passam.
Poetas eternizam.
Deve ser porque sejam almas encarnadas em sentimentos; não tanto em corpos. E sentimentos não se extinguem junto com a matéria — podem transferir-se em letras, versos, sons, incorporando, assim, outros corações.
Poetas não morrem porque nunca nasceram de fato para a realidade concreta. Sua morada sempre foi e será a dimensão do além, de onde enxergam muito além das dimensões. Apenas chega um dia em que o portal entre os dois mundos se fecha, cessando o intercâmbio entre eles.
Não são seres criativos, de modo algum. O verdadeiro poeta não cria, mas expressa aquilo que ele já é: pura criação. Quanto mais profundos, menos esforço há neles em manifestar inspiração.
O trabalho do poeta não se restringe a expor meras palavras elaboradas ou bem ordenadas; a grandes ideias ou geniais sacadas… Sua missão é descobrir e desvelar tesouros nos lugares mais recônditos e ignorados pela maioria. Ele é um arqueólogo a escavar cardíacos solos endurecidos pela aridez.
São os poetas que traduzem a linguagem da alma das pessoas, já em desuso, incompreensível e esquecida por elas. E enquanto existirem, a comunicação não estará perdida — haverá chance de salvá-las do controle mental autômato.
Pessoas passam.
Poetas eternizam.
Plantam sementes, imortalizam jardins e fazem preservar a pureza cristalina da Fonte.
(Homenagem ao poeta Vander Lee)