Quem quer ser oceano precisa se molhar

Deixar-se dissolver no oceano, não faz com que se deixe de ser rio. Você torna-se rio dentro do oceano e o oceano num rio. Mas pra que isso ocorra, paradoxalmente você não se identifica mais com o rio, apenas como água… E vendo-se como água você descobre sua função como rio.

O mesmo se dá com nossa identidade. Haverá algo em nós que é único e que somente através dele a Vida consegue se manifestar no mundo. Não importa se existem pessoas mais habilidosas nisso ou naquilo… Seu modo de ser e fazer é único quando feito com amor.

Mas, hoje em dia, poucos se importam em fazer com amor; a maioria das pessoas faz para poder ser o melhor — mesmo que esse “melhor” não seja a elas mesmas — e também para ganhar vantagens. A Vida não deixa de se manifestar, apesar disso, mas perde-se todo o sentido de existência de cada indivíduo.

Até mesmo as flores de uma mesma espécie contêm algo de peculiar em cada uma, ainda que imperceptíveis aos olhos comuns.

O humano, entretanto, é uma “flor” que geralmente quer se destacar das outras sendo o que não é: uma samambaia, um cacto, ou uma trepadeira.

Somos todos instrumentos da Vida que “quer” se expressar na diversidade original de cada um, e mesmo assim nos esforçamos para ser aquilo que ditaram como normal, ideal ou respeitável… Aquilo que ditaram como melhor, soterrando e matando o dom da alma na mediocridade.

Se nascemos ou não com um dom, não importa saber. Importa saber o que faz o coração vibrar de vontade e alegria; o que nos faz sentir únicos — não, melhor.

Mas o irônico é que quando descobrimos e reconhecemos esse dom, ao assumi-lo, grande parte da sociedade o rotulará de vaidoso, arrogante ou prepotente, pois muitos confundem modéstia com humildade, assim como amor-próprio com autoidolatria. Valorizar-se será motivo de rejeições, mas ao mesmo tempo resguardar-se será motivo de críticas — pois você será taxado de egoísta. Não há escapatórias…

Esse será um dos percalços de assumir-se, como o arriscar tudo pelo que mais amamos. O mundo lhe cobrará ajustamento através de ameaças e chantagens emocionais. E se não nos ajustarmos ao que desejam, nos chamarão de ingratos, loucos, indolentes, traidores, e nos virarão as costas. Apenas quem desafia os padrões sabe que isso é fato.

Porém serão esses os maiores desafios na vida: o sacrifício pela Verdade; o sacrifício pela Essência. Apesar de ser incômodo sua travessia, é o que nos levará ao que verdadeiramente somos e viemos fazer.

Ainda que machuquemos egos de familiares, amigos, companheiros, ou do mundo, até que ponto estamos dispostos a “pagar o preço”? Somos realmente fieis à Verdade e ao Ser que realmente somos, ou somente até onde nos convêm — ou lhes convêm?

Isso, contudo, não é um chamado à revolta ou a distúrbios nas relações, mas um posicionamento firme diante às persuasões — tanto críticas quanto sedutoras — contrárias ao seu propósito maior. A rebeldia deve ser do espírito e não das reações raivosas pelo desejo de liberdade. Posicionamento é honra; imposição é orgulho, este sim, prepotente.

Será que estamos dispostos a perder tudo para sermos autênticos? Sim, pois perderemos apoio, elogios, simpatia, tapinhas nas costas, admiradores, reputação, respeitabilidade…

Será que temos “jogo de cintura” e conseguimos driblar os obstáculos do menosprezo, do descrédito, ou do julgamento? Sim, porque é preciso muita disposição, habilidade, paciência e uma barreira emocional forte para aguentar o adversário e a torcida contra.

A decisão em assumir o que é verdadeiro em si não precisa ser algo muito radical a chocar o mundo ao redor. Ele pode ir acontecendo gradualmente, sem que a maioria perceba direito. O mais importante é fortalecermos a vontade e a decisão internamente conforme nossa autodescoberta, pra que quando a hora certa chegar, saibamos lidar de forma apropriada e sem precipitações.

Mas ainda que seja gradual, a decisão em se assumir a vontade da alma precisa ser feita de modo integral e contundente, pois a indecisão é o veneno que mata qualquer objetivo.

Não importa que sejamos só um fragmento do Todo, uma poeira no planeta, temos nossa função útil e significativa dentro de um enorme contexto. Não é porque somos partículas que não temos nossa importância individual. No entanto, é preciso muito cuidado e discernimento para valorizar-se como existência única incomparável ou vangloriar-se como individualidade a manipular pessoas. Pois quem se vangloria é porque ainda não alcançou o sentimento de unicidade em que suas qualidades estão a serviço dos outros — ou seja, não compreende o valor da pessoalidade na impessoalidade e confunde amor ao propósito de vida com mera autoafirmação.

Já aquele que se valoriza como identidade para a coletividade sem se vangloriar sabe — e sente — que é um rio no oceano e um oceano no rio…

Disposto, sob áridos olhares, a se molhar.