Sobre se sentir livre em um mundo materialista

Liberdade é um assunto e um sentimento muito amplo e difícil de explicar. Mas quando a gente sente-se livre, algo nos invade e pede para continuarmos assim para sempre! E é sobre isso que quero conversar com vocês:

Vou tentar explicar aqui o que tem feito me libertar do materialismo e capitalismo, mas já aviso que este será um dos textos de alguns sobre o assunto, porque essa liberdade tem fundo pessoal, emocional e político, e tá muito complexo explicar tudo de uma vez só.

Talvez você se identifique com minha rotina: você acorda ainda cansado, e fica na cama pensando em quanto você não quer ir trabalhar. Começa a sofrer com certa antecedência, pensando no trânsito que estará, no ônibus lotado, na fila do bilhete único, no tempo lá fora, e no montante de coisa que se tem para fazer: mas você ainda nem se levantou. Pensa se não tem jeito de inventar uma desculpa para não ir naquele trabalho hoje, pois está saturado dessa rotina e das pessoas que o cercam. São duas horas para chegar até lá, e quando finalmente se chega ao trabalho, você ainda se sente infeliz. Seu chefe vive gritando com você e duvida de seu potencial à todo momento. Questiona sua formação e humilha na frente de outros profissionais. Quando chega o salário, você resolve se dar um presente: um sorvete, um café, uma roupa nova, um jantar diferente ou até uma viagem bate e volta no fim de semana. Mas logo o domingo chega, e você começa a sofrer de novo pensando no amanhã, sendo que ainda nem dormiu.

Você não se sente mais feliz, e percebe que só se submete à este tipo de trabalho, este tipo de constrangimento e de gasto de energia física e mental porque está preso no sistema. Sim, você precisa pagar sua comida, seu aluguel, sua conta de luz, água, internet, telefone, celular, talvez até uma tv á cabo, já que, afinal, depois de um dia estressante, a gente só quer relaxar um pouco, não é mesmo? Aaah, e não podemos esquecer: tem que guardar o dinheiro da previdência privada, a poupança para comprar aquele apê do sonhos, e pagar o cartão de crédito, que tem algumas coisinhas lá, como o celular da última geração que você acabou de trocar, em 10 vezes sem juros.

Contas, contas, contas contas e contas! E foi num dia desses que acordei pela manhã e comecei a me questionar os valores das coisas: um aluguel tão caro, muito dinheiro para se alimentar, mas muito mais dinheiro para se presentear pelo estresse do dia a dia. São gastos supérfluos, que a gente paga com tudo aquilo que nos submetemos no nosso trabalho: o salário, o transporte, a humilhação, o estresse. Tudo isso a gente se permite passar apenas para ter. Mas TER o que?? Pedaços de plásticos e tecidos? O que de fato precisamos ter na vida? E se a gente pudesse não precisar do governo, não precisar pagar mais nada na vida? Como isso poderia ser? De quem é essa terra que a gente tem que pagar para viver? A gente vive ou a gente sobrevive? A vida não deveria ser mais leve? Com todo esse esforço, estamos enriquecendo quem? Qual o verdadeiro valor das coisas e da vida?

E foi quando conheci alguns modos alternativos de se viver. Comecei com uma casa em uma kombi. Bem pequeno, mas poderia me transportar para qualquer lugar! Poderia ir para América do Sul e trabalhar pelo computador. Depois comecei a amadurecer a idéia e surgiram as Tiny Houses: Casinhas minúsculas que são construídas sobre rodas. Pode ser transportada ou estacioná-la em algum lugar. Adeus aluguel? Meus olhos começaram a brilhar. Mas para essas opções, eu deveria ser compacta. E então começou minha limpeza de materiais: o que preciso, de fato, para viver? Quantas calças, quantas camisetas? Como me disse um amigo: apenas duas, uma no corpo e uma no varal. E não é verdade? Pra que a gente tem 4 pares de sapato, 15 camisetas, 5 calças, se nosso corpinho é apenas um?

E aí minha idéia foi evoluindo. E conheci um novo modo de se viver: permacultura! Vou explicar com minhas palavras o conceito geral, mas aconselho um estudo mais aprofundado sobre o tema. A permacultura é um modo de se viver onde se constrói casas que são auto sustentáveis. Elas não agridem em nada o meio ambiente, e praticamente não produzem lixo nem esgoto: utiliza-se da luz solar para clarear os ambientes, a água da chuva é utilizada como fonte de água principal. O esgoto não existe: os excrementos produzidos viram adubo, e a água “suja” da pia da cozinha, rica em nutrientes, serve para irrigar plantas. É um modo de se viver onde o Homem e a natureza vivem em sintonia. A comida é fresquinha, direto da horta. Sem agrotóxico, sem transgênico. Tudo da terra. Sem contas.

E aí a gente se dá conta de que sofremos para manter um padrão de vida que só nos faz doentes. Essa é minha nova meta de vida: viver em harmonia com a natureza, numa casa que seja sustentável. E para isso, só levarei comigo os objetos realmente importantes: não preciso de 5 pares de sapatos, 4 sandálias e 2 botas. Só tenho um par de pés. Também não preciso atravessar a cidade para ter um trabalho estressante, se não preciso mais comprar botas e nem pagar conta de luz.

E finalmente, quando você chega nesse nível, e começa a estudar sobre o mundo, você se dá conta de que o sistema quer que você consuma cada vez mais, e que o consumo desenfreado tem acabado com nosso planeta. A gente compra e joga fora. As coisas são todas descartáveis. É muita inutilidade sendo produzida, para que a gente consuma, para que a gente trabalhe, e pague impostos. E quanto mais a gente consome, mais a gente quer consumir.

Desconstrua-se. A gente necessita de muito pouco para viver. Mas a gente não consegue entender isso, pois crescemos numa sociedade onde TER é nosso maior valor, e quem tem mais, tem mais status, e é mais reconhecido. Para viver, a gente só precisa de água, ar, sol e terra para nos dar alimentos. Água, ar e sol, até onde eu sei, ainda são de graça. Só nos falta um pedacinho de terra e duas camisetas para viver.