Era pra ser mais uma quinta-feira num T9 como qualquer outra.

Era pra ser mais uma quinta-feira como qualquer outra e eu não me lembro se quinta-feira poderia levar esse hífen (mas lembrei e corrigi, quintas-feira tem hífen como todos os dias da semana). Mesmo ter ido dormir uma hora mais cedo na noite anterior, ainda consegui acordar atrasado e com a boa e velha preguiça de sempre. A avenida Protásio Alves estava um caos e eu tirei aquela bela manhã meio que chuvosa pra ouvir o radialista furioso com o resultado da votação da câmara dos deputados. Era pra ser mais uma quinta-feira como qualquer outro dia de fazer algum exame de sangue, tirar um raio X, visitar o dentista para fazer uma limpeza de fazer chorar com aquela maldita broca irritando os dentes, provocando daquelas sensações terríveis de desespero.

Era pra ser uma mais uma quinta-feira como qualquer outra de atravessar a cidade e tirar uma panorâmica da arca dentária pra dar prosseguimento da reforma completa nos dentes. Peguei o T9 quase na esquina do trabalho e Chance, the Rapper me acompanharia o trajeto todo com rap (mesmo gospel) de uma excelência mais que perfeita, o que me faz criar lembranças que eu nunca existiram. Estava eu, concentrado, naquele mundo de faz de conta quando ela passou pela roleta do ônibus.

Era pra ser mais uma quinta-feira de julho como qualquer outra, e por mais que as pessoas digam que o tempo passa tão depressa, até ela e o acompanhante passarem pela roleta, eu a admirei o máximo que eu consegui. Passaram aqueles micro milissegundos de tempo que o universo inteiro definitivamente parou para que eu pudesse apreciá-la. O HD do cérebro já trouxe de prontidão alguém parecido e conhecido, pra fazer aquela comparação rápida pra ver se era a mesma pessoa. Não foi dessa vez, cérebro. Quem sabe uma próxima. Aqueles cabelos longos e crespos não mostravam qualquer tipo de rebeldia, mesmo que pudessem dar a ideia de desordenados. A pele, um ébano de ouro, era tão linda como as raízes da África-mãe. Ela estava toda de preto e uma maquiagem deixava seus olhos e boca nos mesmos tons amarronzados. Ela e o acompanhante sentaram um de frente para o outro — ela virada para a platéia do ônibus e ele fazendo parte da mesma. Logo vi que pela atitude, não eram namorados, muito menos parentes. Pela sorte que o destino deu, consegui acompanhá-la e apreciar o rosto pelo reflexo do vidro da janela do ônibus.

Era pra ser mais uma quinta-feira num T9 como qualquer outra e naqueles… Sei lá, 40 minutos de viagem, foi o suficiente para termos uma vida feliz como casal. Lembra de quando nos conhecemos? Tu me viu chegando e cumprimentando a gurizada, ajudando no transporte de mais um fardo e me olhou dos pés à cabeça de longe. Eu estava de óculos escuros e também já tinha te visto. Estava de olho em ti desde que coloquei os pés naquele samba fundo de quintal. Eu lembro que tava frio e tu usava esse mesmo… Sobretudo? Pelo reflexo, enxerguei o sorriso dela ao ver a tela do celular, mas parece ter me ouvido falar pelo pensamento. E o nosso primeiro beijo, enquanto esperávamos o Uber. Lembro que garoava fraco e tu abraçou o braço com frio. Nossos primeiros dias como casal, cinema no Praia de Belas, os dias de sol nos parques da cidade, os encontros no Centro durante a semana só para nos vermos durante a semana. O vidro refletiu uma cara pensativa por parte dela. Uma música confiante embalava a minha imaginação e nem vi as pessoas entrando no ônibus. De repente ela fez uma cara séria, olhando pro movimento daqueles bairros chiques de Porto Alegre. Acho que foi aquela vez que tivemos nossas primeiras DRs. As vezes que brigamos e ficávamos algumas horas sem nos falarmos. Confesso que eu tinha pisado na bola, mas não foi por querer. Quem nunca errou? Eu acho que tu nunca errou.

Era pra ser mais uma quinta-feira no T9 quando vi que ela mexia os lábios conversando com o acompanhante na frente dela. O coral gospel do Chance, the Rapper não me deixava imaginar uma voz pra ti. Por mais que a tua boca se movimentava, tu estavas muda. Assim como eu, no dia do nosso casamento.

Minhas mãos suavam muito e eu não pude conter as lágrimas quando tu chegou perto de mim com o buquê na mão e o teu pai te entregando a mim junto com toda a responsabilidade de te proteger. Jurei pra ti e pra mim que faria isso até o último dia que meu diafragma se movesse. Lembra também do nascimento da nossa pequena? Ao contrário do silencio do casamento, o parto foi bem barulhento. Inventei o nome de Allyah, ao lembrar de carregar a nossa filha nos braços cantando trilhas sonoras de filmes e videogames pra ela. Pelo reflexo do vidro do T9, ela sorriu mais uma vez. — Como poderia ser toda do pai se eu que te carreguei por nove meses?

Era pra ser mais uma quinta-feira no T9 como qualquer outra e a minha parada era a próxima e esse texto precisa ter um fim. Cheguei à nossa velhice. Tu me chamando de véio e eu te chamando pelo diminutivo do nome, te vendo sempre como uma rainha. Acho que nem o próprio vidro do T9 deve saber se nossos olhos estavam mesmo na rua ou nos nossos reflexos. Da minha parte, podes ter certeza que sim. Pedi licença, levantei e puxei a campainha. Fingia olhar para a frente do ônibus pra ter um pretexto de olhar de novo no seu rosto, o seu lindo rosto e sorriso.

Era pra ser mais uma quinta-feira num T9 como qualquer outra e tu, praticamente, cagou pra mim. Imaginei os momentos mais felizes da minha vida te tendo como principal personagem e tu nem aí. Ela baixou os olhos pro celular quando a observei por uns 4 segundos, na tentativa do cérebro guardar o máximo de informação. Estava decretado o nosso divórcio. Foi bom… Aliás, perfeito enquanto durou.

Foto: Fernando Nussbaumer — https://fernandonussbaumer.com/porto-alegre/

Era pra ser mais uma quinta-feira como qualquer outra e meu primeiro comentário em voz alta por cima Chance, the Rapper foi que negra liiinda, justamente com esse enfase no i. As chances de não nos vermos nunca mais são de 99,99%, mas quero que saiba que foi perfeito cada momento contigo. E na volta ainda consegui pegar o mesmo ônibus e, é… Nos perdemos. Mas vá que aquela probabilidade percentual do contrário ocorra. Pode ser em uma próxima quinta-feira como qualquer outra.

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