Infancia na Rua: Ontem e Hoje

Eu moro numa rua sem pavimentação e, resgatando da minha memória a porcentagem em conhecimentos geográficos aprendidos no tempo de colégio, essa rua é composta por 4 lombas, 1 vale e um planalto. E eu to exatamente aqui, nesse último. E mesmo com o chão de terra que de vez em quando a prefeitura envia uma máquina pra planar e alguns buracos que ações naturais da natureza impõem, o planalto ainda consegue ser o lugar das tradicionais brincadeiras da infância.

Taco, futebol, pula corda… Tirando bolita, aqueles ali eu fiz. Aquela história de que a infância é a melhor coisa do mundo nunca foi uma mentira, pois hoje o muro frontal da minha casa, fazendo a fronteira com o planalto público da rua, serve como arquibancada para os jogos de futebol ou taco que ocorrem diariamente ali. Meus vizinhos de 8 a 14 anos, eu calculo, por mais que já possam se interessar mais pelas meninas da mesma idade, reservam aquelas horas do dia para socializar por uma questão de convivência ou simplesmente por puro esporte. 10 anos atrás, eu fazia a mesma coisa. Cansei de pular muros pra pegar a bola enquanto me encobriam, cansei de pular os foguinhos enquanto cantarolavam que um homem desconhecido bateu à porta e simplesmente abriram e, na sequencia, ordenavam que as senhoras e os senhoras pusessem a mão no chão, pulassem num pé só ou dessem uma rodadinha. As únicas preocupações daquela época, ao meu ponto de vista, eram notas vermelhas e decepcionar os velhos em casa. O que essa gurizada faz hoje no planalto da minha rua é só uma continuação do que eu, tu e qualquer outro da nossa faixa etária fez.

Me parece que essa época boa, infância, está deixando de existir aos poucos. Por mais que ainda resista, esse mundo louco que consegue avançar em passos largos em alguns pontos e ritmos muito curtos em outros, está morrendo. Os joelhos estão chegando à adolescência com menos cicatrizes, a cama de gato parece algo impossível de fazer hoje e há menos histórias sobre os tempos de infância atualmente. Que tempo bom, que não volta nunca mais.


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