Ninguém me lê — novas práticas de circulação de escritores
Recentemente, tenho escutado que determinados autores ou determinado tipo de literatura não é lido. Reclamações essas que se espalham pelos perfis de escritores, que são feitas em eventos literários ou indicadas em perguntas feitas por jornalistas em entrevistas.
Reclamar das preferências ou quantidade de livros lidos, no Brasil, não é algo novo. Para se ter uma ideia, Machado de Assis já reclamou disso. Lima Barreto também. Isso só pra ficar nesses dois, porque com toda certeza todo autor já deve ter pensado que não é lido. O mercado editorial também sempre reclama do volume de livros que o brasileiro em média compra. Pensar os motivos que levam a esse tipo de reclamação e o que pode ser feito para driblar isso é o que propomos com esse texto.
É fácil definir o que um autor ou um editor quer dizer quando o brasileiro tem que ler mais, o primeiro é de que ele não está sendo lido, que o que se tem lido não é tão bom quanto o que ele mesmo produz; o segundo está pensando no volume de vendas, ou seja, em seus lucros com os livros que edita. Aqui, não necessariamente está incluída uma preocupação com a leitura ou com a formação de novos leitores, mas a questão do reconhecimento, prestígio e dinheiro.
Mas como fazer para que isso seja alcançado dentro de uma dinâmica cada vez mais diversificada a qual vivemos? Em tempos de alta exposição na internet, de várias modalidades de produção e circulação de textos é necessário que o autor seja mais que aquele que escreva um texto vendável. Dificilmente há espaço para um novo S. D. Salinger, ou seja, viver recluso.

Ao autores e editores tem que perceber que para que um livro seja bem vendido, é necessária a presença nas redes, investimento alto em divulgação. As editoras já perceberam isso e este é um dos motivos que os levaram a cooptar blogueiros e youtubers que falam de livros. Autores mais novos também entenderam isso. Mais que escrever livros, eles se colocam na cena editorial comentando os livros dos colegas, indicando, participando de diversos projetos que os colocam em evidência. Ninguém vai descobrir você do nada. Ou melhor, se o leitor não têm interesse no tipo de literatura que você produz, dificilmente, você será descoberto.
Aliás, essa prática de se por em evidência não é algo recente, do nosso mundo imerso na rede mundial de computadores. Desde sempre autores e livreiro-editores apostam na alta exposição, nos escândalos, na propaganda, no nome de quem escreve para se fazer ser vendido e, consequentemente, lido.
Ser publicado em uma grande casa editorial, produzir textos para periódicos e suplementos literários de prestígio e participar de eventos pelo país, ajuda bastante e mostra que o autor se encontra bem inserido dentro da dinâmica do campo literário, por meio das redes de sociabilidade que ele cultiva. No entanto, as comunidades leitoras que ele atinge são sempre as que se mantêm constantemente interessadas nesses eventos, editoras e publicações literárias. Isso pode ser um nicho do mercado ou uma parcela muito reduzida do amplo público leitor. Ou seja, ele tem prestígio e cultiva boas relações, é até bem lido e vendido, mas o seu alcance não é abrangente em relação ao público leitor.
O que ocorre é que esse tipo de exposição faz dele um potencial para ser conhecido nacionalmente, mas isso não implica que acontecerá. Estar em uma grande editora te possibilita isso por meio do marketing e da logística de distribuição; os suplementos também possibilitam isso, mas em se tratando de público, ainda é muito mais fechado e específico para aqueles que são interessados nesses tipos de publicações. No caso de Brasil esses dois componentes passam por diversos entraves, seja o de não ter livrarias suficientes nas cidades, preço dos fretes e a possibilidade financeira real para que um cidadão separe dinheiro para bens culturais.
Ou seja, para um autor novo ou mesmo para quem já está no caminho há bastante tempo a situação é complicada, porque além de todas essas questões, ele ainda tem que lidar com a disputa pelo espaço com outros autores que estão produzindo no mesmo gênero editorial.
Daí que se fazer presente em contato com o leitor de forma direta por meio das redes sociais, colocando livros na mala e indo pra eventos para se vender, fazer visitação em colégios para falar de leitura e dos livros que escreveu, ir em eventos de amigos e discutir outras coisas que não apenas o que escreveu, mas o que lê, tem se tornado também práticas recorrentes dos novos autores nacionais.

Eles compreendem que a dinâmica mudou, que para se fazer conhecido é necessário ir até o leitor, pegá-lo pelo braço e saber quem ele é, do que ele gosta. Quando isso acontece, pode ser até que o leitor que ele conheceu não tenha tanto interesse no tipo de literatura produzida por esse autor que o abordou, mas é bem possível, que ele tenha o interesse despertado. Quando isso acontece, o autor conseguiu alguém que vai espalhar a sua palavra, indicando o autor para os outros leitores que estão ao seu redor, criando uma rede de divulgação orgânica.
