Obra aberta: David Lynch

O modo inconclusivo com o qual se encerra Twin Peaks — uma pergunta de Cooper, “em que ano estamos?”, um chamado por “Laura” e um grito histérico de Carrie Page — desconcerta sobremaneira à todos nós; tal desconcerto não surpreende os fãs de David Lynch, acostumados com o aspecto “nonsense” ou, como prefiro chamar, “aberto” de suas obras. Filmes como Eraserhead, Mulholland Drive e Inland Empire carregam toda uma realidade onírica, proporcionando uma viagem alucinatória e confusa. Quando apreciamos sua obra, somos sonhadores que sonham e vivem dentro do sonho.

Uma obra lynchiana não se encerra na última cena, nem no último segundo que precede os créditos. Um turbilhão de teorias sobre o que teria acontecido em todo aquele momento de embriaguez surreal que estávamos experienciando deixa-nos atônitos; tentamos, quase que involuntariamente, dar uma razão, encontrar um encadeamento lógico em uma narrativa estilhaçada por falta de referências. Uma série de explicações surge em nossa mente, tendo como produto uma série de visões. Vemos, de maneira concisa e bem articulada, as peças do quebra-cabeça. Encaixar tais peças, contudo, é uma tarefa quase impossível.

O fato é que a dúvida provocada pelos finais ambíguos ou sem menor sentido de seus filmes é o que constitui a extensão de suas obras. Twin Peaks é uma obra aberta por excelência: passível de mil interpretações diferentes. Qualquer tentativa de explicação genuína da série cairá em apenas uma visão particular, como em uma imagem gestalt; não existem “verdades”. Não pretendo iluminar o surrealismo essencial de sua obra, mas Lynch, à exemplo de Dalí, contribui “para o total descrédito da realidade”. Neste caso, o investimento recai sobre o descrédito à uma realidade propriamente narrativa. Se não há uma realidade, restam somente interpretações, e só.

Umberto Eco aponta que a poética da “obra aberta” consiste na conservação dos “atos de liberdade consciente”. Não paramos de matutar à cada final de episódio, pois a série proporciona esse ato de liberdade. E, à exemplo de Kafka, em Twin Peaks “um mundo ordenado segundo leis universalmente reconhecidas substituiu-se por um mundo fundado sobre a ambiguidade.” Mundo real, mundo dos sonhos, diversas dimensões, White Lodge e Black Lodge, o red room: em certa altura, nem nos interessa mais o conceito de real; até a realidade do tempo é, ao final, posta em xeque. Nos contentamos, e nos deliciamos, com um universo de sentido intangível.

But, Who’s the dreamer?