Os candidatos no JN

Longe de mim querer dar aula de jornalismo para William Bonner. Mas tem uma coisa que me incomoda bastante nesse modelo de entrevistas: na minha visão, entrevista deve tirar o entrevistado da sua posição confortável, deve sim gerar desconforto e arrancar respostas que ele não queira dar. Mas isso pode ser feito com educação. William e Renata se portam como debatedores, extrapolando o limite da gentileza com os candidatos que eles convidam para a bancada.
Um exemplo disso foi a pergunta feita por Reinaldo Azevedo para Jair Bolsonaro no debate da RedeTV! Educado, tirou o candidato do prumo sem a necessidade de se impor. Dito isso, vamos aos desempenhos individuais.
Ciro Gomes foi a máquina de debater que já é conhecida. Rebateu as perguntas com base teórica e bons argumentos. Conseguiu explicar - foi o seu melhor momento - seu plano de refinanciamento de dívidas pessoais, uma proposta dificil, mas que o próprio Ciro disse que explicará melhor. No momento mais delicado da noite, saiu-se bem ao explicar a insólita presença de Kátia Abreu como sua vice, relembrando Lula e José Alencar. Seu momento mais delicado foi ao ter que explicar o apoio irrestrito a Carlos Lupi, figura política indefensável. Porém, o modelo de entrevista-confronto do JN favorece o estilo de Ciro, que sabe se impor e não tem medo de explicar suas contradições.
Jair Bolsonaro resolveu partir para o embate com Renata Vasconcelos, e tomou uma resposta que entrou para a história do jornalismo brasileiro, quando perguntado sobre diferença de salários entre homens e mulheres, algo que ele já defendeu.
Além disso, não conseguiu ser assertivo nem mesmo em temas que diz ter domínio, como segurança pública. Apertado, aumentou o tom de voz. Mudou de opinião sempre que confrontado e mostrou o despreparo já tradicional e conhecido. O problema é que é exatamente isso que seus eleitores gostam, então saiu sem sofrer danos. Quem sentiu vergonha de sua atuação é quem não vota nele.
Mas é inegável que marcou seu gol no final, ao relembrar - apertado por William Bonner - que a Globo apoiou a ditadura. Tomou de 7x1, mas fez o gol da noite
Geraldo Alckmin é, na minha opinião, o melhor orador político do Brasil. A fala pausada e a capacidade de dizer qualquer coisa sem mudar a expressão do rosto é uma grande arma, e ele usa isso sempre que pode. E foi o que ele fez o JN. Embora tenha sentido falta de perguntas mais incisivas sobre casos de corrupção em que ele estivesse diretamente envolvido, como o nome na planilha da Odebrecht e o caso da merenda das escolas públicas de São Paulo, foi apertado. Conseguiu defender Aécio Neves e Eduardo Azeredo - o último, inclusive, já condenado - sem fazer nenhuma autocrítica ao partido, que não os expulsou. Defendeu também o centrão. Quando falou sobre transporte público e obras de mobilidade urbana, disse que tudo está sendo feito. O grande problema de Alckmin é que o maior colégio eleitoral do país sabe que ele não conseguiu fazer nada do que disse que fez nos últimos sete anos em que governou o Estado de São Paulo. Por isso sua candidatura não decola e ele segue perdendo os votos da direita para Bolsonaro. Seu momento mais delicado aconteceu quando foi perguntado sobre seu secretário de segurança que está preso e suspeito de corroborar com práticas corruptas na construção do Rodoanel, e o fez sem rubor.
Marina Silva foi questionada sobre sua capacidade de liderar e saiu-se razoavelmente bem ao responder sobre o assunto, mas mostrou uma características já conhecida, que é a ausência de firmeza na defesa de opiniões mais polêmicas. Tergiversou ao falar de Aécio Neves, mesmo admitindo que não o apoiaria se soubesse das denúncias da Lava Jato. Foi questionada sobre a sua atuação como ministra do meio ambiente e as alianças com o centrão, e não foi convincente. Porém, foi firme ao se contrapor a Geraldo Alckmin.
