Eremita.IV

O som das badaladas ecoava por todo o vale. Os sinos da igreja tocaram logo após o amanhecer, anunciando um dia especial. Um dia de celebração.

O eremita já estava de pé antes mesmo dos galos cantarem. Os animais tiveram suas vozes abafadas pelo toque dos sinos, mas não se calaram e enfrentaram o desafio.

O homem tinha planos de visitar o modesto templo do outro lado da cidade. A igreja estava posicionada oposta à montanha, como se tivesse inimizade com o habitante da caverna.

O eremita não sabia dizer. De sua parte, os sentimentos eram os mais amigáveis, mas nunca se sabe o que se passa na mente de outra pessoa. Ainda mais na mente de Deus.

Ele trocou de roupas e se preparou para sair. Queria chegar cedo à missa. Seus lobos não estavam presentes e ele viu isso como um bom sinal. Tudo estava pronto, exceto pelo livro sagrado.

Ele tinha uma cópia. Não poderia se chamar de sábio se não tivesse lido tal livro. Ele o guardara junto com todos os outros e já não o lia há muito tempo. Tinha se dedicado a buscar resposta em outras literaturas.

Desta vez, tentaria falar com o autor da obra, para eliminar suas dúvidas. O eremita pensou que se queria mesmo ouvir Deus falar algo novo, deveria mostrar que ao menos possuía consideração por tudo que já tinha sido dito.

O ermitão encontrou o livro no fundo de seu baú, coberto de poeira.

Duas aranhas correram para longe da lombada, onde pequenos fios brancos se acumulavam. Talvez, se pedisse com gentileza, os animais pudessem lhe contar sobre a vida dos profetas e dos santos homens que deram a vida para guardar tais palavras.

As aranhas fugiram para fora do baú, se escondendo nos buracos no teto da caverna, certas de que tamanho pecador não fosse digno de ouvir histórias tão belas.

Se não estivesse tão determinado, o eremita teria concordado. Mas algo o chamava para estar naquele lugar e não eram somente os sinos.

Com um sopro, a capa preta surgiu debaixo da película de poeira. As letras douradas destacavam-se com força.

Ao abrir o livro, o homem deparou-se com um capítulo conhecido, onde um profeta, dentro de uma caverna, era confrontado pela voz divina.

“Que fazes aqui?”

O ermitão fechou o livro e deixou a caverna.

Não queria perder o foco. Não tinha tempo para perguntas, quando era ele quem almejava respostas.

O livro pesava em suas mãos. Fazia tanto tempo que não o carregava que agora mais se assemelhava a uma espada ou um machado, com um corte muito mais poderoso.

O vilarejo permanecia calado, ignorando os leves sons da manhã. O eremita sabia como tirá-los de seu estado de dormência.

Subir os degraus da igreja foi um pequeno martírio. Sua própria Via Crucis. Ao abrir as portas, o homem percebeu que era o único naquele lugar.

Estava feliz com isso.

No final do corredor estava o altar, esperando as vidas para serem sacrificadas. Do lado direito, uma cabine escura, dedicada à confissão dos pecados. À esquerda, um quadro negro, para os momentos de ensino. O ermitão caminhou primeiro até o quadro.

O giz tremeu em suas mãos, porém não caiu. Seus dedos começaram a traçar o desenho de uma caverna pequena, com uma pedra ao seu lado. A batina ficou suja de poeira branca, mas ele não se importou. Ainda havia algo a escrever.

Um livro. Um capítulo. Uma frase.

O sermão para aqueles que entrariam na igreja.

Uma pergunta para levarem para casa.

O eremita abandonou o giz e seguiu até uma corda, conectada ao sino, no topo da igreja. Ele a puxou e deixou que o som ecoasse por todo o vale mais uma vez.

Depois, o homem sentou-se na cabine. Tinha uma confissão a fazer.

Confessou suas fraquezas e falhas. Contou sobre suas decisões e seus pensamentos malignos. Falou sobre sua descrença, enquanto esperava sozinho pela Sabedoria, que ainda não chegara.

Perguntou aos céus quando a veria de novo.

A divisória de madeira que separava os lados foi movida. Uma bela mulher o observava.

O eremita surpreendeu-se. Limpou os olhos.

Não era alucinação.

A mulher sorriu e lhe fez uma pergunta.

A mesma que estava no quadro.

A pergunta que ele fazia a si mesmo e que deixara para a congregação.

“Que fazes aqui?”

O eremita se levantou e deixou o confessionário. A mulher o seguiu. Ele deixou o livro negro sobre o último banco, além do que já estava no púlpito.

Um presente para o primeiro fiel que entrasse.

Abraçados, ambos deixaram a igreja. O homem olhou para o céu e agradeceu.

A Sabedoria tinha chegado.

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