Perguntei a ela qual era sua poesia favorita, ela me respondeu que era uma letra do Radiohead recitada por uma voz computadorizada, “faixa 7 do disco Ok Computer, pra ser específica”. O meu era um comercial de cigarros da Luis XV de 1978. Disse que depois mandaria o link do YouTube (mas não mandei pois tinha a intenção de que ela procurasse e viesse puxar assunto comigo de forma espontânea, depois). Trocamos figurinhas no intervalo, o seu cavaleiro favorito também era o Shiryu. Contei a curiosidade de que o Camus de Aquário fazia uma leve referência ao escritor ganhador do Nobel de mesmo nome. A nacionalidade dele no desenho também era argelino. Tenho receio de parecer pedante quando venho com essas informações desnecessárias. Sou inseguro. Mas creio que não. Nada que seja passado com paixão receberá tal alcunha. Ela disse não ter muitos amigos aqui, ainda, apesar do tempo já considerável. Não se acostuma a cidade. Talvez eu a chame para tomar um café numa tarde fria e solitária. Numa tarde não solitária, também. Preciso aprimorar a minha bebida antes, porém. Te percebi num momento delicado. Quis segurar sua mão. Não, não agora. Acredito em timing. Já não sei mais como percebe-lo, mas acredito. O ônibus chegou, ela tinha de ir embora. Quase pedi que ficasse. Queria te emprestar meu livro do Neruda, falar do anel de Saturno. Espero ter feito um bom contato visual. Sou péssimo com isso. A mão começa a tremer, mas eu juro que não é insegurança e sim o excesso de café que tomo todas as manhãs. Já jurei pra mim mesmo que pararia. Vou parar. Droga, seu ônibus está indo embora. Olhei uma última vez para os seus negros olhos turvos. Eu devia ter embarcado junto deles. “Marinheiro só” uma pinóia. O bar da frente toca mais uma na jukebox. Chico Buarque. Esses bêbados do centro tem um bom gosto musical. Aposto que se vestem inteiros de branco, feito um enfermeiro. Talvez viva um sambista ali. Alguém com um talento não descoberto. Quantos seriamos somados? A música toca ainda. Identifico: “Futuros Amantes”. Lembro dos olhos dela. Sinto vontade de ligar para o Chico lá no Leblon. Ele que não me recite Drummond, falando de inocência. Inocência coisa nenhuma. Esse papo de “não se afobe não que nada é pra já” é uma besteira. Timing é uma besteira. Merda, ela se foi. É pra já, sim. É pra ontem. Penso nos seus negros olhos turvos, no selvagem em Jack London… penso, enfim, naquilo que você não me disse. Tomo mais um café na barraquinha da frente. Meu ônibus chega. Quantos amores adiados, quantos mais?

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