A imprensa e o triunfo de Trump

Um aspecto da eleição de Donald Trump que ainda merece ser devidamente analisado é o papel da imprensa durante a corrida eleitoral que terminou com a vitória do magnata. Como foi possível obter um desempenho tão expressivo em meio ao “bombardeio” de alguns dos veículos de comunicação mais influentes do mundo?

Além do apoio da Casa Branca, da máquina do Partido Democrata e de Wall Street, Hillary Clinton contava com a simpatia declarada da imprensa — excetuando-se, talvez, a Fox. Para citar dois exemplos “de peso”, o Wall Street Journal e o New York Times declararam apoio à democrata em seus editoriais. A revista Time previu, em capa publicada na véspera da eleição, o “derretimento total” da candidatura de Trump, após o surgimento de uma gravação desrespeitosa às mulheres.

Estamos tratando, no entanto, daquilo que se convém chamar de “grande imprensa”. Para entender o fenômeno em sua plenitude deve-se voltar os olhos para a imprensa do interior e os veículos alternativos, como os blogs independentes (nem é necessário citar o infame The Crusader, jornal da Ku Klux Klan). Qual terá sido a influência, por exemplo, dos jornais do interior de Ohio, para citar um dos swing states onde o republicano levou vantagem sobre Hillary?

No entanto, afirmar que estas publicações influenciaram o eleitor a votar ou não em Trump seria compactar com a Teoria Hipodérmica, já em desuso nas ciências da comunicação. Raciocínio semelhante é defendido pelos entusiastas da autointitulada “Escola sem partido”, que veem a sala de aula como uma plateia cativa, sem considerar, por exemplo, a influência das redes sociais.

No livro As Tecnologias do Imaginário, Juremir Machado da Silva sugere que, no imaginário da pós-modernidade, a ideologia está relacionada à sedução, e não mais à manipulação, como era o entendimento, na modernidade, da Escola de Frankfurt.

Ao mesmo tempo, é possível sugerir que a imprensa não tenha captado o sentimento de grande parte do eleitor norte-americano, em especial aquele que vive afastado das metrópoles. No início da corrida eleitoral, era dada como certa uma disputa entre as famílias Bush e Clinton em novembro. Jeb não chegou nem perto, enquanto Hillary enfrentou enormes dificuldades para superar Bernie Sanders no Partido Democrata.

A crise de representatividade, portanto, é um elemento essencial para se compreender a vitória de Trump. Para a imprensa, a ficha demorou a cair.