O exagero da pós-verdade

A rapidez com que o termo “pós-verdade” foi incorporado ao nosso cotidiano compromete uma análise mais profunda sobre seu significado. Escolhido como a palavra do ano do Dicionário Oxford, em 2016, o neologismo é utilizado para explicar a avalanche de informações falsas que circulam, sobretudo, nas redes sociais digitais. Não à toa, a palavra ganhou popularidade no ano em que Donald Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos e o Reino Unido decidiu se separar da União Europeia — eventos que, como se sabe, foram um terreno fértil para as fake news.
“Pós-verdade” foi o tema escolhido pelo historiador inglês Peter Burke, professor emérito da Universidade de Cambridge, para a conferência de abertura do 11º Encontro Nacional de Pesquisadores em História da Mídia, ocorrido em junho, em São Paulo. Sem apelar ao catastrofismo, porém, Burke apresentou uma desconstrução do termo, associado a um conceito bem conhecido da humanidade: a mentira.
Embora um livro de mesmo nome tenha sido lançado em 2004 (The Post-truth Era, Disonesty and Decepcion in Contemporary Life, de Ralph Keyes), a palavra “pós-verdade” entrou definitivamente para o vocabulário no ano passado, como forma de descrever o fenômeno da manifestação de informações que não condizem com a realidade, especialmente por meio das redes sociais digitais. Pela lógica da pós-verdade, eventos como o triunfo de Trump e o Brexitteriam sido influenciados por uma série de informações sem comprovação que foram replicadas principalmente por ferramentas como o Facebook e o Twitter. No entanto, a adoção do termo está longe de ser inquestionável.
Autor de uma densa pesquisa sobre a construção da imagem do rei Luís XIV, o Rei Sol, o inglês critica o exagero que tem caracterizado o debate sobre a “pós-verdade”. Como mostra de que a manipulação da palavra não é nenhuma novidade, citou passagens históricas em que governantes se utilizaram as ferramentas comunicacionais para fazer com que o seu discurso predominasse. A seguir, trechos de entrevista concedida por e-mail após o evento.
Muito tem se falado sobre a era da pós-verdade e o seu impacto. Qual a sua opinião?
Devo admitir que vejo essa conversa sobre “pós-verdade” como um grande exagero, do tipo que acadêmicos atribuem a jornalistas na busca por uma manchete impactante ou o título de um livro. Minha visão é de que a propaganda, torcendo — ou, como nós dizemos agora, “girando” — a verdade tem uma longa história, e mentiras (incluindo mentiras oficiais) ainda mais longevas.
Qual a relação entre as fake news e o Brexit?
Mentiras certamente foram contadas, especialmente pelos que desejavam a saída (da União Europeia), nos meses anteriores ao referendo, mas agora o público está melhor informado sobre as prováveis consequências do Brexit, especialmente na economia.
E como serão estas consequências?
Em uma palavra: ruim! O Reino Unido está atirando no próprio pé.
Na sua opinião, por que as pessoas acreditam nas “fake news”?
Algumas pessoas não são críticas. Todos precisamos sermos treinados para sermos críticos da informação que ouvimos, lemos, vemos, etc. Todos somos acríticos muitas vezes, ouvindo o que queremos ouvir e acreditando no que queremos acreditar.
O século XIX é chamado de o século dos nacionalismos. Você concorda que as redes sociais ajudam a trazer esse fenômeno de volta?
O século XIX foi a primeira era dos nacionalismo, mas não vejo muitas evidências do seu declínio após 1900, apesar da Liga das Nações, das Nações Unidas, etc. No máximo, as redes sociais reforçam mensagens que chegam de outras fontes. E talvez as nações estejam ficando menores (Catalunia/Espanha, Croácia/Iuguslávia, por exemplo).
Em alguns dos seus livros, você escreve sobre o poder da imagem. Você acha que as redes sociais ajudam a banalizá-la?
Sobre as imagens, mais uma vez eu não analisaria apenas as redes sociais. Em cada século, desde o XV, graças à imprensa, posteriormente a fotografia, o cinema, a televisão, e então a era digital, as pessoas tem sido expostas a uma inundação de imagens. Isso provavelmente aborrece as respostas. Quanto à trivialização, depende do contexto. Os jornais podem fazê-la, tanto quanto o Facebook.
Você tem fortes relações com o Brasil (Burke já foi professor do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo — IEA/USP). Como vê o nosso atual momento político?
Visito o Brasil todos os anos e também leio sobre o país, mas tudo o que tenho visto sobre o atual momento político é que ele se assemelha ao roteiro de uma telenovela, embora mesmo o mais engenhoso roteirista talvez nunca tenha imaginado nada tão melodramático quanto a situação atual.