Sociedade do Espetáculo

De todas as efemérides que marcam este 2017 (Centenário da Revolução Russa, 500 anos da Reforma Protestante, 10 anos do iPhone, etc), uma das mais significativas para a compreensão do presente é o cinquentenário de A Sociedade do Espetáculo, do francês Guy Debord.

Autor-símbolo das manifestações de 1968, Debord trouxe uma interpretação inovadora sobre o imaginário moderno ao afirmar que “toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresentam como uma imensa acumulação de espetáculos”, referindo-se ao que considera o modelo de vida dominante na sociedade de então — representado principalmente pelos meios de comunicação de massa.

Em um cenário onde, segundo o autor, o que antes era vivido diretamente passa a ser representado, a imagem adquire papel preponderante. Desta forma, o autor conclui que o espetáculo é não um conjunto de imagens, “mas uma relação social entre as pessoas, mediada por imagens”.

Isso significa dizer que, para o autor, a imagem é um meio, mas que essa relação mediada não é genuína. O papel do espectador, no entanto, não é de mera vítima passiva, mas de cúmplice. Para Debord, “a realidade surge no espetáculo, e o espetáculo é real”, o que o autor considera uma “alienação recíproca” que se constitui na base da sociedade então existente.

Considerado de acordo com seus próprios termos, o espetáculo é a afirmação da aparência e a afirmação de toda vida humana — isto é, social — como simples aparência. Mas a crítica que atinge a verdade do espetáculo o descobre como negação visível da vida, como negação da vida que se tornou visível. (DEBORD, 1997, p. 16)

Esse conceito de espetáculo está estritamente relacionado à ideia de mercadoria, da qual o fetichismo encontra-se realizado no espetáculo. O consumo é condição sine qua non para que o espetáculo exista. Ao mesmo tempo em que surge a figura do “consumidor de ilusões”, a mercadoria é vista como uma “ilusão efetivamente real”, “e o espetáculo é sua manifestação geral”.

No espetáculo, vive-se de forma contemplativa, de modo que o espectador se personifica nos famosos e “personalidades” da mídia. A esse cenário o autor acrescenta o triunfo da quantidade, em detrimento da qualidade. O autor conclui, portanto, que esse espetáculo é resultado do capitalismo. Enquanto o espetáculo nos oferece uma vida engessada, Debord sustenta que toda a vida interessante está fora dele — e que, portanto, o espetáculo precisa ser derrotado.

Neste sistema de aparências definido pelo autor, ter e parecer sempre será mais importante do que ser. Mais do que isso, o espetáculo nos empobrece por fazer pensar que ele é a única possibilidade existente. Inclusive na política.

A sessão da Câmara dos Deputados que votou a admissibilidade do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, no dia 17 de abril de 2016, transmitida ao vivo para milhões de pessoas, contou com cusparada, confetes, e dedicatórias como “pela paz em Jerusalém” e “por você, mamãe”.

Já foi dito que, naquela tarde/noite de domingo, o Brasil se olhou no espelho. De forma surpreendente, descobriu-se que aqueles são nossos representantes, eleitos por… nós mesmos! O espetáculo, tal qual descrito por Debord, alcança sua forma mais grotesca — e em rede nacional.

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