O verme
Seu coração era como uma maçã. Nele habitava um verme pequeno e andarilho que atravessava seu miolo numa dobra espacial. Esse pequeno acontecimento repentino o causava uma angústia estúpida e inexplicável. Era o verme dilatando o tempo, proporcionando àquela melancolia amarela que nauseava as mãos. Maldito! O verme não se transportava pelo mesmo buraco, mas insistia em novas viagens temporais para atravessar o coração. Também estava aflito com suas tentativas de chegar. Não saberia o lugar. Sua insistência na busca apodrecia àquele cujo o coração habitava. Não era mais novidade ser surpreendido pelo choro descontínuo. O calor começava nas bochechas e se espalhava pelo nariz. Algumas vezes arrepiava os braços, e logo depois terminaria a causar o inchaço nas bolsas oculares. Vinha ele, potente e sincero, o choro. Lhe acalmavam — em vão — as pessoas que o orbitavam. Quanto mais tentava esconder, mais escorria. Perdia o controle do excremento frio e infecundo. Era escarniado do outro lado do buraco da minhoca. A sociedade espetacularizada teimava em deixá-lo deslocado em seu mal estar. “Enfia no cu”, pensava que diziam. Começou a descrição de dentro, pensando no coração porque não tinha mais o que olhar. Do lado de fora só via imagens duras, nada que pudesse tocar. Cogitava que era um grande coração. Ou talvez uma grande maçã que ocupava uma sala de estar. Pintara Magritte. Talvez alguém lhe entendesse sem conhecê-lo, talvez alguém fosse impedi-lo de largar o fio de vida que restava. Enquanto isso o verme atravessava seu buraco. E ficava deslumbrado com a rapidez que atravessava a maçã. Simulava viagens espaciais enquanto seu invólucro humano descobria que a letra de sua música favorita era uma farsa. Cantava “love is your enemy” com o vigor de quem acreditava. Perdeu sua voz quando um dia encontrou o outro com quem iria compartilhar curtas felicidades. Acreditava mesmo que a felicidade era conseguir diminuir sua angústia, como lhe disse um português de óculos e chapéu. Descobriu no processo que apenas trocava uma coisa por outra. O verme achava que atravessava o universo pelo miolo do coração, ele achava que existia mais com o outro. Enquanto ia existindo mais, esquecia-se que continuava a ser perfurado por dentro dia após dia. Não sabia nomear suas sensações, mas sentia algo verde. Parecia que iria enxergar um passo à frente. O problema eram os domingos. Quando não ocupados por futilidades ou pelo o outro, dava importância maior aos buracos da maçã. Um dia achou que a dor era insuportável, mas não pulou da janela. Pensou que podia atravessar um buraco da minhoca, que podia dobrar o espaço numa propulsão mais rápida que a luz. Não entendia nada sobre massas, só entendia sobre o peso do vazio. Mas calculava um arremesso para um lugar mais torturante do que já habitava e preferiu evitar o salto.