Do outro lado do divã

Muitos me questionam como pode o Psicanalista passar horas de seus dias ouvindo seus pacientes contarem seus problemas, dramas e sofrimentos e não se envolver ou absorver toda essa tensão que lhe é depositada. Vou esclarecer para vocês como isso é possível, mas antes dizer-lhes que as sessões de atendimento, ao contrário do que a maioria pensa, também têm muitos relatos e conteúdos prazerosos e engraçados. É extremamente comum o analisando falar de como se divertiu com amigos, ou uma mãe relatar prazerosamente os primeiros passos de seu filho, a aprovação no vestibular, um novo emprego, assim como uma infinidade de momentos que podem vir à tona no divã, pois a pessoa que ali está é convidada o tempo todo a experimentar todas as suas emoções, sem restrições, sem medos e livremente.

Mas ,voltando ao que foi proposto, o Psicanalista para formar-se e atuar clinicamente sem absolver ou envolver-se com aqueles que lhe procuram precisa estar assegurado pelo tripé formado por estudo teórico, análise pessoal e supervisão.

Estudo Teórico

É justamente graduar-se em um curso de Psicanálise que forneça todo o conhecimento teórico baseado na literatura e prática desenvolvida por Sigmund Freud e seus posteriores, como Anna Freud, Melanie Klein e Lacan, que são exemplos de grandes desenvolvedores do método psicanalítico pós Freudiano.

Análise Pessoal

É imprescindível que ao ingressar-se numa escola de Psicanálise o aluno também de início a sua análise pessoal para além de ter o primeiro contato com a prática possa começar a lidar com seus conflitos pessoais a fim de compreendê-los e, quando assumir a posição de analista, já esteja preparado emocionalmente para não sofrer junto com seus pacientes e possa ser empático ao ouvir o que lhes contam sem absorção. E mesmo depois de formado e já atendendo é fundamental que continue tendo o seu analista particular para que possa lidar com os inimagináveis conflitos que surgem e surgirão ao longo de sua vida, afinal Psicanalistas e Psicólogos são pessoas comuns e enfrentam problemas e sofrimentos diariamente como todo mundo.

Supervisão

Todos nós que trabalhamos com a psique humana temos o respaldo de um supervisor, que é um Psicanalista com vasta experiência, de nossa escolha, que irá nos auxiliar com orientações e diretrizes e tirar-nos duvidas quando essas surgirem com relação a como proceder com algum paciente. Cabe também ao supervisor observar, a partir daquilo que relatamos a ele, se estamos ou não nos envolvendo emocionalmente ou de alguma outra com os pacientes, pois mesmo que estejamos seguindo rigorosamente o tripé mencionado, como em qualquer profissão estamos sujeitos a erros. E a preocupação é justamente que esses erros sejam identificados rapidamente quando ocorrerem e que a devida intervenção seja feita para que o tratamento siga adequadamente.

Essas normas foram elaboradas e documentadas por Freud para garantir aos pacientes e profissionais a eficiência do tratamento, com critérios rigorosos a serem seguidos, e que unidos a outras normas formam a Ética Psicanalítica, que o pai da Psicanálise tanto prezou e exigiu. Portanto para que possamos dar conta de tudo que ouvimos no setting (consultório) temos que ser acima de tudo éticos conosco e com aqueles que estão em nosso divã, fazendo correto uso da teoria e da prática e cuidando da nossa própria mente com nossos analistas e supervisores.

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