Fale agora e não cale-se para sempre

No texto “A voz que deu origem” que publiquei em 08 de março, contei a vocês como a Psicanálise surgiu a partir do discurso original de Anna O., paciente de Breur, que ao ser interrompida enquanto falava pediu para que seu médico não a interrompesse e a deixasse falar, pois sentia-se melhor sempre que externalizava seus sentimentos, e como a mesma disse, sentia que estava “limpando a sua chaminé”.

É justamente esse o tema que trago hoje, a importância de falar, de não guardar para si o que causa incomodo. Todos nós já estivemos em situações difíceis em que desejamos expor um pensamento ou uma fala, seja na longa espera da fila do mercado, no banco, em brigas com nossos amigos, pais, filhos, discussões em um namoro ou casamento complexo. Porém, muitas vezes não é possível dizer aquilo que se pensa por questões bastantes particulares, medo de perder algo ou alguém, medo de magoar a quem ama, ou mesmo até por educação, e claro, para conseguirmos viver aparentemente bem socialmente precisamos, como diz o ditado, “engolir sapos”.

Quantos de nós, após enfrentarmos tais situações, temos dores de cabeça, ânsia, gastrite e tremedeiras? Isso se chama psicossomática, ela ocorre quando não conseguimos elaborar em palavras nossos sentimentos tortuosos e estes encontram manifestações físicas quando a nossa mente não dá conta e lança para o corpo na tentativa de aliviar-se. Pois bem, compreendido que palavras não ditas geram sintomas físicos e mentais e que não é possível dizer tudo o que se pensa, qual a solução para aliviar essa tensão? A Transferência.

Freud, pai da Psicanálise, percebeu que enquanto suas pacientes falavam dirigiam a ele afetos, palavras ofensivas, agressões verbais, rispidez e outros sentimentos que estavam guardados a muito tempo, e que essas palavras eram justamente aquilo que gostariam de ter dito a alguém, mas nunca fizeram de fato e que ao transferia-las ao Psicanalista sentiam-se aliviadas e a longo prazo sintomas psicossomáticos cessavam, ou seja, colocavam o Psicanalista no papel daqueles que lhes causaram os sofrimentos.

A partir daí Freud percebeu a transferência como uma das principais ferramentas do método psicanalítico e a desenvolveu como teoria e prática. Portanto, todos nós podemos buscar alivio para tudo o que gostaríamos de dizer mas não podemos, através de um Psicanalista, profissional que estará devidamente preparado para acolher e receber palavras tão significativas sem rebater ou julgar, garantido sigilo e respeito as dores de seus pacientes e ajudando-os a expor sentimentos e não mais guarda-los.