Quem é o Pai?

Quem é o pai a partir da ótica psicanalítica é o que irei tratar no texto que segue, no entanto não poderia deixar de falar dele, que desenvolveu essa técnica e teoria que revolucionou o mundo, Freud, o pai da Psicanálise. Nascido em Freiberg em seis de maio de 1856, médico neurologista de família judia, desde criança já mostrava-se inquieto e curioso sobre a humanidade, leitor de filósofos que vão desde pré-socráticos à contemporâneos em sua época, desenvolveu desde cedo a capacidade de manter-se crítico a tudo que lhe era apresentado, um grande questionador e pensador. Viu na amizade que tinha com Breur uma grande oportunidade de compreender a mente humana quando o amigo lhe contou que atendera uma paciente sobre pseudônimo Anna.O apenas dialogando com a mesma durante as consultas, mais precisamente ouvindo-a contar suas angustias e sofrimentos diversos. Em uma dessas consultas quando Breur interrompeu Anna, ela imediatamente disse-lhe para não interrompê-la, pois que a deixasse falar livremente, sentia que quando falava “limpava a chaminé” e chamou isto de “talking cure”. Ao ouvir isso Freud mais que depressa começou a fazer o mesmo com suas pacientes, ou seja, a cura pela fala. E através da catarse que suas pacientes experimentavam, os sintomas iam perdendo força. Eis o primeiro esboço do que viria a ser um dia a Psicanálise. Nos anos que se seguiram Freud foi aprimorando a técnica, desenvolvendo-a para que pudéssemos usufruí-la e aplicá-la.

Pois bem, o pai da Psicanálise já sabemos quem é, mas quem é o pai na Psicanálise?

Para Freud a estrutura psíquica se dá a partir do Complexo de Édipo, teoria formulada com base no mito do Édipo grego, onde o filho mata o pai, sem ter ciência da paternidade e casa-se com a mãe, também sem ter essa ciência, posteriormente quando conhece a verdade sobre sua origem, e que matou o pai casando-se com a mãe, fura os próprios olhos e foge para as montanhas, exilando-se diante de sua “herança maldita”. Para a teoria psicanalítica essa é a mesma base que possibilita a criança desenvolver sua estrutura e inserção na civilização tendo como herança a formação do superego, sendo esse uma instância psíquica responsável por ser um censor onde normas, regras, leis, como a lei do incesto, por exemplo, que pesou sobre Édipo, cultura, religião, entre muitas outras coisas que não nascem com o sujeito, mas são introjetadas.

Ao nascer, a criança tem com a mãe ou com sua cuidadora uma relação simbiótica. O bebê não sabe diferenciar-se de sua mãe e não compreende que ela é outra pessoa, acreditando que ambas são apenas uma. Para que essa diferenciação ocorra é necessária a presença de um terceiro nessa relação, seja do pai ou de um cuidador que possua a função paterna, que Lacan, posteriormente viria a intitular de “Nome do Pai”, mas deixemos essa teoria para depois. Quando o pai surge ele realiza uma intercessão nessa simbiose, fragmentando bebe/mamãe, cindindo, e a partir de então a criança tem a primeira noção de que para além de si existe um outro, e tem no discurso da mãe a autorização para isso. Observem que o bebê normalmente é apresentado ao pai pela mãe, quando essa lhe repete frases como:

- Este é o papai!

- Vá com o papai um pouquinho!

-Olha, papai chegou!

Aqui acontece então a Lei da Interdição para a então formação do já mencionado superego. Esse é o primeiro contato que o humano tem com a lei, e é partir dele que posteriormente compreenderá as leis a níveis de sociedade.

O Complexo de Édipo sugere que dessa tríade surgem alguns conflitos, onde a criança sofrerá frustrações necessárias para seu desenvolvimento. Lembrando que crianças que não sofrem frustrações tornam-se adultos mimados e com dificuldade de independência e de seguir regras. Essa é uma das funções desse complexo, pois quando bem vivido e desenvolvido torna o sujeito ainda na infância e adolescência ciente de que independente de seus cuidadores é uma pessoa única e segura, capaz de cortar o “cordão umbilical” e conquistar no mundo seus próprios anseios e desejos, não dependendo dos pais ou daqueles que o cuidam. Em resumo, um bem elaborado Complexo de Édipo assegura ao individuo a própria sobrevivência diante das dificuldades do cotidiano.

Agora vamos refletir sobre o pai como entidade religiosa. Para Freud a religião possibilita a algumas pessoas manter-se em um estado infantilizado, pois vem em Deus uma possibilidade de substituir o pai/cuidador que outrora teve, transferindo ao pai da igreja a responsabilidade de um protetor a quem recorrerá sempre que precisar de um auxílio ou socorro, buscando nele o que lhe falta. Freud entende nessa relação uma infantilização do sujeito por não ver-se responsável e capaz de responsabilizar-se por suas derrotas, dificuldades e por esperar que um terceiro resolva seus problemas ao invés de ir a luta para conquistar o que deseja. Mas pensemos, e quando o sujeito é acometido, por exemplo, por uma doença terminal e não há o que possa fazer para reverter a situação? Mantém-se aqui o mesmo princípio, a criança quando adoecida busca refúgio na figura de seu cuidador e espera dele o conforto diante de sua incapacidade de lidar com aquilo.

Para Lacan, que eu havia mencionado anteriormente, não é importante haver um pai biológico, o importante é haver uma figura que represente a função paterna para a criança, por isso o termo cuidador, para o bom desenvolvimento é necessário alguém que assuma essa postura, seja num companheiro (a), seja num professor, avô (a) e até mesmo um em pai que já faleceu. Afinal o pai falecido é extremamente presente pela falta, sua presença também é autorizada e mantida pelo discurso materno. A presença pela falta prevalece em frases como:

- Se seu pai estivesse vivo ele não aprovaria isso;

- Você jamais faria isso se seu pai estivesse aqui;

- Pena que seu pai se foi, tenho certeza que ele te daria uma bronca;

Observando essas frases conclui-se que a interdição paterna acontece novamente pela autorização da mãe e pelo seu discurso baseado na falta. A mãe assim fala em “Nome do pai”, termo que apresentei a vocês anteriormente.

O “Nome do Pai” sugere a criança o simbólico de o “Não do Pai”, inserindo assim o pequeno sujeito a Lei da Interdição, termo também já mencionado anteriormente, inaugurando a formação do superego, esteja este pai/cuidador vivo ou não.

A resposta para a pergunta Quem é o pai? é tão ampla quanto a teoria psicanalítica, cheia de interpretações cabíveis que podem nos levar a muitas conclusões e ao longo do tempo vem sendo atualizada e ressignificada para melhor compreensão das estruturas psíquicas e da subjetividade humana.

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