Religião e Superego

É muito comum acreditarem e até questionarem o psicanalista quanto a sua crença, noto em meu setting de atendimento uma voraz curiosidade de meus analisandos em saber se sou ateu ou não. Existe um mito quase universal de que psicanalistas são pessoas descrentes e que tendem a lutar contra toda e qualquer forma de religião. Mas isso não é verdade. Quando estudamos um pouco dos principais teóricos psicanalíticos como Freud, Lacan e Jung, fica evidente que religiões e crenças foram alvo de muitos de seus estudos. Antes de sofrer críticas já me antecipo em dizer que acrescentei Jung a lista por ter sido um grande pensador, teórico e psicanalista que posteriormente desenvolveu sua própria abordagem e que contribuiu generosamente para o desenvolvimento psicanalítico. Freud era declaradamente ateu, mas isso não impõe aos analistas posteriores a descrença como via de regra. A religião pode ou não fundir-se com a vida pessoal do sujeito, independente de seus exercícios profissionais. O que quero dizer com isso é que o médico, o dentista, o pedreiro, o consultor, o frentista, assim como muitos outros profissionais podem ou não ser ateus, ou ainda terem crenças variadas e isso não é fator determinante para torná-los bons ou maus executores de suas tarefas.

Ao lermos obras freudianas como Totem e Tabu, O Futuro de uma Ilusão e Mal estar na Civilização, nos deparamos com um profundo estudo realizado por Freud com intuito de rastrear e determinar a origem das religiões, o porquê de suas origens, como afetou nossos antepassados e de que maneira chegou até nós, assim como determinar a maneira como enraizou-se em nossa subjetividade, determinando-nos a formas de agir e ser, variavelmente.

Vocês devem estar perguntando-se aonde desejo chegar com isso. Para responder a essa pergunta preciso antes desenvolver com vocês o conceito de Superego. Temos três instâncias psíquicas, denominadas Id, Ego e Superego. Não vou discorrer a respeito das duas primeiras agora, deixarei para uma próxima oportunidade. O superego é uma instância que desenvolve-se a partir do que nos é introjetado, não nascemos com ele, o meio em que vivemos e crescemos é responsável por essa introjeção e formação, entendemos aqui que é formado então pela cultura e civilização a qual estamos inseridos. Para ficar mais evidente e de fácil compreensão essa instância é formada pelas regras, normas, leis, educação, política, etiquetas, crenças, mitos e pela religião, tema central desse texto. Há muito mais em nossos superegos além do que citei anteriormente, isso varia de pessoas para pessoas, mas o que é comum a todos é que ele serve a nossa psique como um grande censor. Ou seja, quando sofremos uma censura é essa instância atuando sobre nossos pensamentos e ações. Um ótimo exemplo é quando vemos o sinal vermelho e paramos, quem nos fornece essa capacidade é o superego, ele que nos permite saber as possíveis consequências de ultrapassar o sinal. Um acidente, uma morte, um prejuízo financeiro, e fica fácil compreender que não nascemos sabendo disso, isso foi introjetado em nós pelo meio, aprendemos com alguém.

Agora ficará mais fácil entender que o meu desejo é chegar a umas das funções da religião. Não cabe ao psicanalista questionar a fé de seus analisandos e vice-versa, não é a isso que o processo psicanalítico se presta, mas presta-se como ferramenta para ajudar o sujeito a questionar-se sobre o papel da religião em sua vida. Pois sendo a religião um censor (componente do superego) para barrar seus instintos associais e egoístas que o levará ao caos, não há porque desconstruí-la. Afinal durante séculos a religião fez parte do processo civilizatório, evitando uma série de cadeias destrutivas sociais. Não que eu concorde com a imposição religiosa. Muito pelo contrário. Estou dissertando aqui religião como parte de uma instância psíquica e não como instituição religiosa, pois destas teria muito a questionar e discordar.

Por outro lado temos sujeitos que adoecem justamente por serem massacrados por esse censor, não sendo assim tão saudável ser suprimido por ele. E ai sim, a de se discutir o papel da religião, pois está já não lhe serve mais como censor, mas como carrasco punitivo, levando a não lidar com suas angústias e anseios de maneira mais ou menos equilibrada. Isso sugere alienar-se em medos, punições e perdas apenas pelo fato de desejar algo que supostamente é errado.

Se pensarmos no ateu, as mesmas teorias se aplicam, pois sendo o superego um censor, mesmo que não tenha introjetado uma norma religiosa, outras normas e regras foram ali depositadas que sugerem poder levar ou não o sujeito ao adoecimento psíquico.

Concluímos que a religião assim como o ateísmo não são fatores que nos permitem julgar o melhor ou pior de cada pessoa, pois independente disso pode ou não o sujeito desenvolver patologias, há muito mais em cada um de nós que caminhará para uma vida saudável ou não saudável. A religião pode ou não ser favorável, cabe a cada um em sua análise pessoal chegar às conclusões a respeito de si. E reconhecer-se como sujeito falho na crença e na descrença, responsabilizando-se por isso.

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