Quanto vale uma ponto.com



Foi a cerca de 20 anos atrás quando a NASDAQ, bolsa de valores eletrônica norte americana especializada em empresas de alta tecnologia, começou a sentir os efeitos de um fenômeno que criaria a bolha das “ponto com”.

As empresas de tecnologia que nos anos seguintes alcançavam valores estratosféricos do dia para a noite, não podiam ser classificadas nem avaliadas pelos critérios das empresas normais, como uma loja de departamento, uma fabrica de cimento ou uma companhia aérea.

Era preciso diferenciar este mercado e convencionou-se chamar de nova economia esse mercado de empresas recheadas de bytes e inteligência e de economia de bricks & mortar aquele negócio tradicional que contava com presença física, como as lojas de rua as fábricas e escritórios.

Nos anos que se seguiram, assistimos a uma corrida insana, bastava que uma empresa adiciona-se o prefixo “e-” ou o sufixo “.com” ao seu nome para suas ações se valorizarem meteoricamente.

Uma boa parte do mercado financeiro repudiava aquelas avaliações que não faziam nenhum sentido, como poderia uma empresa valer tanto sem fundamentos, sem fluxo de caixa, sem lucros? É lógico que outra parte do mercado financeiro soube aproveitar muito bem essa bolha e ganhou bilhões de dólares, mesmo sem entendê-la corretamente. Afinal, na verdade, ninguém entendia.

No ano 2000 a bolha estourou e uma parte considerável dessas empresas que tinham suas ações negociadas na bolsa voltou a seu valor de origem ou simplesmente quebraram, muitas foram compradas a preços inimagináveis para serem vendidas por frações de seu valor outras foram fechadas anos depois.

A GeoCities foi comprada pela Yahoo! por US$ 3,57 bilhões no inicio de 1999 era o terceiro site mais visitado na web e 10 anos depois o Yahoo encerrou sua operação.

A Mattel comprou por US$ 3,5 bilhões a The Learning Company e a vendeu em 2000 por US$ 27 milhões

A Cameron Broadcast Systems, uma rádio de ondas curtas, aproveitou a oportunidade para começar a transmitir pela internet, mudou seu nome para Audio.net, depois para Broadcast.com e fez um IPO em 1998 com uma valorização fantástica. Em 1999 o Yahoo pagou US$ 5,7 bilhões pela empresa que depois de varias adaptações é hoje a Yahoo! Music Radio.

Mas, certamente houve casos de sucesso indiscutíveis, como a própria Yahoo!, Google, E-bay, Amazon, Priceline e outros.

Embora a bolha tenha estourado, a lógica de avaliação continuava desafiando os profissionais da área de finanças.

No mercado “brick & mortar”, de forma resumida, o valor de uma empresa são seus ativos (imóveis, estoques, maquinas e etc.) a capacidade de sua marca para atração de clientes (como a Coca-Cola, Sadia) e sua capacidade de gerar lucros.

Mas as empresas web-based não apresentavam esse conjunto de dados para análise, a maior parte delas não gerava um tostão de lucro, ao contrario, geravam sucessivos prejuízos. Não tinham estoque e sua marca era volátil em meio à profusão de “ponto com”.

Aos poucos o mercado financeiro e os profissionais de finanças foram entendendo, pelo menos parte deles, como e principalmente porque os preços alcançam cifras tão gigantescas.

Em 2006 o Google comprou o YouTube por US$1,65 bilhão, alguns analistas achavam simplesmente uma idiotice aquela aquisição, como uma empresa com 18 meses de vida poderia valer aquela fortuna, principalmente porque não gerava receita. No entanto o YouTube tinha 100 milhões de acessos diários e isso valia muito para o Google, juntos conseguiram mais de 101 milhões de acessos diários, um pouco menos que o Yahoo e o MSM à época. Foi sem dúvida um impulso imenso ao Google, que comemorou em 2012 a marca de 4 bilhões de acessos diários no YouTube. Outro fato relevante é que o Google pagou em ações os US$ 1,65 bilhão. Era como se tivesse pago US$ 16,50 por acesso.

Quando o Facebook comprou o Instagran por US$ 1 bilhão o mercado não entendeu que aquele preço era justo, afinal o Instagran tinha 30 milhões de usuários. Estavam pagando US$ 33,33 por usuário de uma empresa que não rendia um único centavo e as ações do Facebook caíram, porém como a compra do Instagran pelo Facebook envolvia dinheiro e ações o custo final ficou por US$ 750 milhões. Em 2015 o numero de acessos diários ao Instagran já alcançou 300 milhões.

A compra do Whatsapp pelo Facebook, mais recentemente em 2014, envolveu ao final US$ 22 bilhões. Esse montante é maior o valor da Sony — US$ 19 bilhões, ou da HP — 13 bilhões à época. É verdade que o Whatsapp já tinha seu fluxo de caixa positivo, afinal tinha 450 milhões de usuários e iniciara a cobrança de US$ 1 por ano, mesmo que ainda não fossem de todos os usuários, geraria anualmente algumas centenas de milhões de dólares. Na media, o Facebook pagou US$ 42 por usuário.

O valor inicial de US$ 19 bilhões no começo das negociações, da qual grande parte seria paga em ações, subiram para US$ 22 bilhões em parte por culpa da alta das ações do Facebook.

Nem o Instagram, nem o YouTube e nem o Whatsapp foram comprados pela sua geração de caixa, mas sim porque trariam trafego que permitiriam viabilizar o modelo de negocio existente, para evitar que outro concorrente o comprasse e se apropriasse deste trafego de usuários. Independente disso, o Google ainda conseguiu viabilizar e remunerar o seu negócio com o YouTube tornando o conjunto mais rentável.

Passados 15 anos do estouro da bolha das “ponto com”, o mercado ainda convive com muita irracionalidade, mas muita coisa mudou neste tempo. As empresas de “brick & mortar” como o Pão de açúcar e Wallmart agora tem sites de e-commerce, que vendem seus produtos e de outros, as empresas web-based como o Google vendem óculos e relógio.

Toda essa complexidade torna ainda mais difícil responder à pergunta — Quanto vale uma empresa “ponto com”?

A primeira coisa que precisamos separar são aquelas empresas “ponto com” que prestam serviços diretos ou vendem produtos, essas, são na verdade canais de venda do mercado de brick & mortar. Estão ampliando os canais de venda que sempre foram limitados pelo alcance geográfico de suas lojas e escritórios. Fizeram grandes investimentos para incorporar todo tipo tecnologia e logística para oferecer produtos e serviços de uma forma diferente.

Para este grupo de “ponto com” o tradicional método de avaliação de empresas pode ser aplicado, algumas adaptações são necessárias, mas o conceito ainda se baseia em ativos, marca e geração de lucros.

Há, no entanto outro grupo de “ponto com” que não vende nada diretamente para o usuário, essas empresas tem um modelo de negócio mais complexo, geralmente se remuneram de anúncios, publicidade e comissões pagos por outras empresas que querem aproveitar o trafego intenso de usuários.

O modelo tradicional de avaliação de empresas não é funcional nestes casos, principalmente quando são startups. O crescimento da quantidade de usuários é tão alto que requer um investimento contínuo e acelerado em hardware e software, profissionais, marketing e espaço físico.

Além disso, esse modelo de negócio se baseia em grandes volumes com preços muito pequenos exigindo uma escala de viabilidade muito alta. Investimentos constantes, pessoal especializado e escala alta faz com que a geração de resultados demore muito tempo.

Para determinar o valor de uma empresa desse grupo é fundamental que se tenha em mente que será a quantidade de usuários um dos pontos principais. A empresa começa com um numero pequeno de usuários e vai crescendo rapidamente ou forma escalar e então é preciso oferecer mais e cresce mais e atinge outra escala e assim sucessivamente.

A necessidade de recursos para atingir à casa de dezenas ou centenas de milhares de usuários pode ser um limitador muito grande e pode levar a empresa ao fracasso antes mesmo de oferecer tudo que pode ou de ser conhecida.

A inteligência na análise de como os usuários fazem uso do produto é outro fator determinante do sucesso ou fracasso deste tipo de empresa. A geração de resultados não será a medida principal da análise do valor da empresa, mas sua capacidade de atrair mais e mais usuários a um custo de investimento cada vez menor por usuário.

O valor de uma empresa “ponto com” nesta categoria está vinculado, portanto ao número de usuários, à capacidade de entender e modular o modelo de negócios, à velocidade de crescimento do número de usuários, sua possibilidade de financiar esse crescimento e fazer com que o investimento médio seja menor a cada novo usuário.

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