a maresia me aperta o peito.

ela era mulher de dizer nunca mais. não é que não olhasse pra trás. ela até se permitia uns relances, mas nunca passos. esses só a frente.

contava rindo da vez que ouviu o político bravar com orgulho que o país estava à beira do abismo. mas que sob sua chancela e liderança inequívoca, haviam dado um passo à frente! ria até tossir os dois maços diários.

fumava e jogava canastra. não ganhava, nem perdia, só se divertia à custa da bandeira 2 voltando da 9 já depois das 6.

era o único momento que não a acompanhava. em todo o resto, eu estava ali com cuidado, às vezes até medo. de um carro qualquer na esquina, de um alguma coisa na escada, de um gás ligado a noite toda.

a senioridade me parecia a ressaca de toda uma vida. dizia amar aquela nova novela, mas dormia já na abertura. às vezes, eu mudava prum canal (o que à época eu achava ser) pornográfico. se ela reparou, nunca comentou. a essas horas, não me chamava mais pelo meu nome. eu era o filho, o tio, o irmão, ou um outro qualquer. nunca eu mesmo. admito que não gostava, mas via com algum carinho.

tentava a entender. de onde viera, pelo que passara, como vivera. a perguntava muito do passado. esse armário? era herança da tia avó dela, uma judia delicada e muito carinhosa. ela mesma lembrava de brincar olhando pra aquela grande coruja descoberta na madeira. ou talvez fosse o presente dum primo que enriqueceu do nada. sempre achara aquele primo estranho, um olhar como se fosse pra não chegar perto. ou será que ela comprou num mercado de pulgas naquela viagem a Londres? agora, já confundo até as suas melhores histórias.

ela falava de muitas pessoas, mas vi poucas visitas a sua casa. hoje, acho, ou sei, ou só sinto, que eu passei a ser mais uma dessas pessoas. presente, mas não ali. e mesmo se ali, não presente.

lembro quando descobri a foto dele nos velhos álbuns. surgiu na casa um silêncio próprio. não do tipo de quando eu acordava mais cedo que ela e comia doces. nem de quando eu roubei três reais do troco da farmácia e fiquei me perguntando se ela reparou. não. era o silêncio de quando eu insistia e batia o pé pra ela ir comigo à praia. ela até ia. mas com uma quietude que me apertava o peito.

mesmo sentindo que não devia, a foto era tão linda, tão linda, mais tão, tão linda, que não aguentei. demorei a aprender que tem coisas que não gostam da luz. hoje, ainda vejo a beleza da foto, claro. vejo o enquadramento sutil, vejo a composição irônica, vejo até brilho nos olhos dele. mas vejo primeiro o agressor. um outro homem a tentar calar uma mulher. mas ela não. ela é mulher de dizer nunca mais.

quanto voltou pra cá, pra longe dele e perto de si, já sentia saudades demais do mar. pra ela, não bastava ver, mergulhar, mesmo que se afogar naquelas águas. já lhe faltavam os cheiros. e, por isso, lhe faltava todo o mar. pra sempre.

hoje, é ela que me falta. foi numa madrugada qualquer, um alguma coisa na garganta. agora, nunca mais.