abra a boca.

quanto tempo ela leva até secar?

um minuto? dois? quatro inspirações lentas? o ir-vir-voltar daquele mosquisto que até pode ser da dengue, mas você não lembra onde deviam ser as listrinhas?

me agradam essas medidas subjetivas do tempo. é ele que nos devora, todo dia, toda hora. mas sou eu que decido os meus termos. me sinto dominando um pouco o moinho do cartola, sabe?

tenho amigos que começam o dia com um chá. camomila com notas de hortelã. “é como acordar nas nuvens, cara”. nunca teve efeito em mim. mas o tempo que a água leva pra ferver, esse sim. o tempo de uma ebulição é exato o que preciso pra acordar por completo pro dia que virá. já o aguardar da água esfriar para o toque nos lábios, me gera ansiedade. é o aguardar proposital de um anticlímax. por isso, em geral, meu bule está vazio. sem camomila, nem notas de hortelã, só a água a ebulir.

levo cinco músicas e meia pra jantar. três vezes mais se eu for cozinhar. preciso dar sete voltas na cidade pra decidir ligar pra você. leio quarenta e duas páginas até sentir fome. gasto dois pacotes de cotonete pra querer mudar de emprego. mas só mudo depois da décima quarta gozada fora de casa. e fico pelo menos três dermatites a base de seguro desemprego.

quando me perguntam quanto tempo preciso, finjo não ouvir. já aprendi que vocês são incapazes de aprender os meus tempos. as minhas esperas. vocês querem uma resposta em ângulos de ponteiros. eu as tenho em movimentos repetitivos do gato na rua farejando o que comer. mesmo que não seja verdade, sinto que sempre preciso de mais tempo que as outras pessoas. um pouco por isso, escondo as minhas medidas, nunca digo em voz alta.

uma vez você me perguntou quanto ia demorar pra eu esquecer você. a seca inteira, eu disse em voz alta.

mas minha boca ainda não secou por completo. e a sua?

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