ela desenhava em alemão.

notava-se mesmo a distância. eu, que nunca dominei esses traços vindos do fundo da garganta, reparei, já no seu primeiro movimento da caneta, a potência germânica.

era uma poliglota de poucas palavras. não uma acadêmica metida a marceneira ao pensar em troncos linguísticos. nem uma empresária disposta a cálculos em mandarim ou árabe. nem uma mochileira sedenta pelas histórias dos feirantes no mercado central de um país não tão central.

era uma poeta. escolhia as palavras com a mesma espera que dedicava às suas leituras. cada palavra lida será uma palavra dita, dizia com gosto.

conseguira o emprego dos sonhos já aos 15 anos. inflação vai, inflação vem, e ela seguia como bibliotecária na escola da irmã. nunca teve vergonha da humildade. enquanto houver bons livros não lidos nessas estantes, ainda tenho o que fazer por aqui. hoje, já não há.

era uma bon-vivant. não era de luxos, claro, mas nas festas comprava sempre do melhor vinho. era pequena e por isso uma taça bastava pra uma noite inteira de samba e suor.

quando a conheci, prolongamos nossos gracejos até ela pedir uma segunda taça. era pequena, mas não frágil. o samba acabou, o vinho também, mas o suor não.

na minha rua, existe um galo que canta só depois do meio dia. acordei com ele. ela olhou pra mim e riu em japonês ao dizer bom dia. respondi com um belo prato de tofu assado. não me lembro dela usar palavras pra agradecer.

verdade seja dita, dela me lembro de poucas palavras. muitas em línguas que desconheço. todas em momentos que não esqueço.

durante um temporal, abri um guarda chuva com gentileza. ela recusou dizendo don’t worry e nos banhamos inteiras.

na primeira eleição presidencial que votamos juntas, ela xingava nossa doxa com mais decoro que boa parte dos candidatos defendia nosso kratos.

fosse qual fosse a situação, seus sims eram em francês e seus nãos em alemão. deitadas na rede, ela sempre dizia carícias em tupi e qualquer dose de vodka eram uns três ou quadro brados em russo.

quando minha avó morreu, ela me sentou no chão e com minha cabeça em suas mãos disse no hay amor como el de nuestra abuella.

quando ela cozinhava, anunciava sempre l'antipasto, il primo piatto e li secondo piatto, mesmo que fosse sempre a mesma comida mineira vermelha de tanta pimenta.

demorei a notar, mas era inegável que nosso melhor sexo era em português. bem brasileiro. uma vez tentamos em tcheco, mas achei frio.

no último dia, quando eu chorava sua partida, ela me beijou e suspirou bon voyage.

comigo restaram seus desenhos em alemão. ainda hoje, quando minhas filhas me perguntam se eu sei falar aquela língua estranha, eu sempre respondo nein.