lhe agradavam os aniversários chuvosos.

mas apenas os próprios. os da mãe, do pai ou da irmã preferia recheados de sol. não por si, mas por eles. lhes agradavam os aniversários luminosos.

o calor lhes preenchia os poros de alegria. a água o faria também, mas apenas a quem o desejasse. e sob aquele teto, só ela via leveza num céu cimento. distante da vergonha, tinha orgulho dos seus gostos.

aos 4 anos, não pode apagar as velas do bolo de aniversário. sem luz, a festa precisava de todas as velas possíveis para se manter acessa. por ainda ser uma aprendiz na arte das memórias, hoje não é capaz de recordar se a frustação era a própria ou se a dos convidados de sorriso amarelo. contrariando as lembranças do pai que conta quase chorando do pranto de sua filha, ela gosta de pensar que estava radiante. radiante mesmo que sem nenhum raio de sol.

a irmã, à noite, chorava perante os trovões. ela, se curvava a eles. pressentia a chuva não pelas nuvens, ou pelas rãs, ou pelas ondas. se arrepiava com a tensão no ar. logo antes da água cair, seu peito palpitava. o estalo da precipitação lhe tirava o fôlego. e então vinha o clímax das gotas escorrendo pelos céus, e pelos postes, e pelos pêlos. a água caía. ela me descrevia a sensação com um tesão muito longe do pornográfico. era o tesão do sexo de luzes apagadas e de janela aberta.

as tempestades eram momentos seus. era a natureza urrando e ela em silêncio a ouvir a si própria. uma vez, o céu caía lá fora e eu perguntei uma mundanidade qualquer. ela me puxou, me sentou, me abraçou e, sem nunca tirar os olhos da janela, me calou.

com o tempo, com o vento, com ela, aprendi a apagar as luzes quando chove.