nossa casa agora é só minha.

só. nem solidão, nem solitude. apenas só.

o seu não estar ainda te faz presente, claro. em cada canto, quadro e utensílio de cozinha da casa que montamos pra viver juntos. a casa que eu, agora, habito. um habitar ainda mais sutil que a brisa que teima em não refrescar esses dias escaldantes.

toda vez que me via feliz com alguém, eu sentia um forte ímpeto de agradecer. por aquele sorriso, aquela expressão carinhosa que aprendi ou aquela piscadela na hora certa de me desconcentrar das tarefas mundanas. com você, não.

o obrigado já vinha em sua forma original de dívida. a vergonha me esquentava o rosto. me sentia mais propenso a pedir desculpas pela minha incapacidade de retribuir à altura. talvez por isso você se foi. seja pelo meu descrédito em mim mesmo ou pela minha real mediocridade. mas agora, já não importa.

lembro da sua expressão ao chegar com os papéis assinados e uma cópia das chaves pra cada um de nós. hoje, os papéis me são uma dor de cabeça guardada na última gaveta e a sua chave uma lembrança largada na sua escrivaninha vazia. e só.