uma placa de concreto amanheceu sobre mim.

ela não me pressionava, apenas deslocava parte do meu crânio pro lado. nem doía, sabe? era como se tivessem cirurgicamente alterado minha anatomia prum novo desenho.

nesse novo eu, meus olhos quase encostavam no chão, chega me dava uma saudade do céu. minha boca mantinha uma forma disforme de careta de criança. eu não conseguia fecha-la e por ela entrava, constante, o cheiro poroso e metálico do concreto. meus pés não se afetavam pela mudança, a placa pesava só a diferença de cortar ou não aquela unha do mindinho esquecido.

não gritei, nem me alterei. só me assustei e, mesmo assim, silenciosamente, quando minhas mãos tocaram a placa e nela senti como se minha própria pele. inclusive aquela cicatriz da vez que caí na piscina vazia no terreno vizinho. sempre me lembro do cinza daquele concreto seco.

acho que já havia adotado aquele cinza pra mim, como símbolo do que eu podia deixar de ser. e agora, de alguma forma, me senti plenamente. a brutalidade do que eu estava já não me distanciava dos outros. em fato, ninguém pareceu notar a mudança. nem na padaria, ou no metrô, nem mesmo na corregedoria. as pessoas me foram até mais solicitas: bom dia, como foi o feriado, tá com sede, te trago uma cerva. porra, nunca tinham nem me oferecido um oi.