Ensaio Sem nome

Era uma vez, um garoto que nasceu em uma família tradicional, em uma cidade tradicional, de forma tradicional. Tudo o que lhe era dado em quesitos de conhecimento, era tradicional. O certo e o errado. O bem e o mal. Deus e o Diabo. Nada era posto em questionamento, somente verdades absolutas eram transmitidas.

Esse garoto, conforme foi crescendo, percebeu que tudo o que ele aprendeu com seus pais, na escola, com os amigos, não era o bastante pra saciar a vontade de conhecimento presente nele. Se contorcia ao ouvir que as coisas eram assim e ‘’o que podemos fazer?’’ ou quando ouvia um ‘’Quem sabe é Deus.. nós não sabemos de nada..’’. Seria o destino da humanidade sempre não saber de nada, sobre nada, e ser submetido a uma figura sobrenatural que controla exatamente TUDO o que você faz ou deixa de fazer? Destino? Certas coisas, quando ele fez 13 anos, não entravam na cabeça dele, simplesmente não se encaixavam. Essa parte foi bem difícil. Quando ele começou a se interessar por essas questões, frequentemente era chamado de louco, de fanático, que essas coisas não passavam de inutilidade, de fantasia.

O mundo real não é esse.

O mundo real. Ele não suportava essa palavra que insistiam em repetir o tempo todo a ele. O mundo real. nunca esquecera dele

Aos poucos e, com mais consciência, depois de diversos abandonos por parte de amigos e até de casos amorosos por conta do seu modo de pensar, ele foi se fechando e guardando seus questionamentos para si; Só ousava se expressar quando via que alguém, assim como ele, possuía inquietações. Parecia até que conversava por telepatia com essas pessoas. Sabia identificar com quem ele poderia ou não falar sobre assuntos críticos. Aqueles assuntos que a maioria julgava ser chato, entediante, inútil.

Em uma tentativa de se adequar, se afastou desses assuntos por uns tempos, e procurou viver a vida da forma como lhe disseram pra viver. Claro que o mosquito que havia lhe picado anteriormente, havia deixado seu veneno, e ele florescia constantemente. (não trato de veneno aqui como algo ruim, ou seja, moral) Ele procurava sempre pessoas para que pudesse desabafar e conversar sobre o que lhe incomodava.

‘’Pego o metro todos os dias, só consigo ver pessoas que andam de modo automático, pensando na vida, na novela das 9, no jogo de futebol, no que vai comer, se o dinheiro vai dar até o final do mês, se vai conseguir conquistar a pessoa que quer, se o parceiro a trai ou não, se é o bastante para alguém, cheia de incertezas e inseguranças, mas essas incertezas não transpõem uma certa barreira do comum-senso, daquilo que elas foram ensinadas a crer desde seu nascimento, algo que não conseguiram superar desde então’’

Dizia isso para seu colega na faculdade. E ele o compreendia, pois assim como ele, possuía as mesmas inquietações.

Certas situações e certas decepções foram essenciais para ele conseguir entender determinadas coisas, seja no amor, seja na dor, seja na infelicidade ou felicidade.

O que ele não podia suportar era ditados e verdades prontas. fórmulas de sucesso, regras de felicidade, regras de ação, padrões de qualidade, padrões de conduta, padrões de normalidade. Tudo isso o enojava, se sentia excluído do resto do mundo quando via fulano ou ciclano afirmando coisas com tanta convicção; a verdade para ele sempre foi subjetiva. Digo, foi subjetiva quando não se tratava de situações muito específicas onde se via transtornado pelo impasse entre o que pensava e o que sentia. Condenava a moral vigente, condenada qualquer tipo de religião ou doutrina. Mas ao mesmo tempo, sabia que não podia escapar de determinados afetos e determinadas Verdades.

Contatos com estilos musicais diferentes, leituras diferentes, pessoas diferentes, fizeram ele se sentir mais incluído no mundo ao seu redor. Até chegar ao máximo de aceitação de que, sim as coisas são como elas são, mas não por causa de Deus, não por que existe uma regra universal para aquilo. As coisas são como são pois há uma eterna luta entre a natureza do ser, os fenômenos que proveem desse ser, a interpretação desses fenômenos, e a moral que dita o que seria esse conjunto de coisas. Moral que provem de um contrato social, previamente combinado, em que o ser humano para viver em sociedade, precisa de certas verdades práticas.

Assim então ele entendeu o verdadeiro conceito, e necessidade moral para determinados assuntos, práticos, e entendia que esses assuntos em nada estaria ligado com a verdadeira essência das coisas. A essência das coisas é algo oculto pra nós, somos humanamente limitados para entender certas coisas, não importa o quanto avançamos cientificamente, não importa o quanto a ciência hoje, em 2017, tenta dar respostas com base em fatos, porém não há uma interpretação, questionamento do pensamento desses fatos, algo que somente a filosofia pode proporcionar.

Atribuímos a fatos como verdade, sem nem ao menos saber como se surgiu, antropologicamente e pela língua, o conceito de fato

Não sabemos exatamente o que um conceito significa.

Um conceito é uma ideia. Uma ideia é uma interpretação subjetiva de algo. Um conceito nada mais é que uma ideia que é aceita e compartilha por todos, assim, trazendo veracidade a ideia. E essa veracidade surge como? Estamos tão longe da nossa essência; Tudo o que sabemos sobre as coisas parte de uma interpretação nossa, e socialmente aceita, conduzida, imposta.

O que é realidade? O que é verdade? O que é certo e errado, bem ou mal? além de uma espécie de conformidade com a nossa moral? o filtro da moral é o que faz do nosso conhecimento legitimado. Nós, ocidentais, temos os mesmos conceitos de verdade que uma tribo africana? que alguma tribo oriental? O que a globalização fez foi generalizar uma determinada moral e ética a fim do que é ‘’verdadeiro’’ ser ‘’verdadeiro’’ a todos. Uniforme. Padronizado. Padrões que são necessários para um controle total, um controle de mercado, um controle da humanidade como um todo.

Com risco de dizer o que alguém já disse, e partindo de pressupostos relativamente conhecidos, eu discorro sobre a ‘’verdade’’, um tema tão antigo, mas tão atual.

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