6 Botões e 1 Milhão de Sentimentos

A Novidade da Semana no Mundo do Tio Zuckerberg

Bem, como todos já devem ter visto, após alguns meses de testes com os espanhóis e irlandeses, o Tio Zucka finalmente resolveu implantar mais cinco botões de sentimentos no Facebook, além do famoso e já gasto "like". Para isso, contou com a ajuda do psicólogo Dacher Keltner, que prestou consultoria ao filme Divertidamente (quem tem crianças em casa deve se lembrar das personagens Alegria, Medo, Raiva, Nojinho e Tristeza).

Confesso que essa novidade me deixou bastante intrigado, pois tenho refletido bastante sobre o papel que os signos exercem na nossa comunicação. O quanto estes conseguem traduzir o que sentimos? Não é surpresa para ninguém que várias marcas têm eliminado as palavras de seus logotipos, em detrimento dos ícones e símbolos. Ex.: Banco do Brasil, times de futebol, Nike, Starbucks, Rede Globo, Instagram e o próprio Facebook, dentre outras.

"Em tempos de comunicação rápida, de preferência em até 140 caracteres, a escrita tem perdido espaço para as abreviações, gírias, neologismos e, principalmente, para as imagens (dentre as quais os emoticons)."

O argumento utilizado para a criação dos novos botões é de que as conversas no Facebook estavam se tornando muito radicais e polarizadas. Tudo em nome da "democracia". Até faz sentido. Nos discursos acalorados das redes sociais há um insistente e cansativo maniqueísmo do tipo: PeTralha versus Coxinha, Hétero versus Homo, Feministas versus Machistas, Bolsonaro versus Jean Willys, são-paulinos versus corinthianos, Teologia da Missão Integral versus Teologia da Prosperidade, rock versus sertanejo, e por aí vai. Um milhão de sentimentos que afloram por meio de um, ops, agora seis botões. E pode reparar: em tempos de economia de atenção, basta uma rápida escaneada em sua timeline (ler tudo e entender tudo são coisas dos nossos pais) e um clique para você tomar partido, ou como a intelligentzia diria, para você se "engajar" em algo.

"Quantas vezes você já curtiu um post apenas porque o achou bonitinho, ou até mesmo por pena? Ou talvez, para fazer uma média com os seus amigos e ser considerado um cara ou uma mina 'cool'?"

Fico imaginando como seria a nossa vida se tivéssemos apenas os seis botões do Facebook para nos expressarmos. Será que eles dariam conta dos nossos sentimentos reais? Existe algum sentimento pleno, do tipo: nossa, amo 100% tal pessoa! Mas, será que ama mesmo? Em todos os momentos, em todas as situações? Tudo, tudinho? E nos seus momentos de raiva? É só raiva ou também tem uns 20% de revolta? No mundo do politicamente correto, ainda estamos engatinhando na arte de nos expressarmos e demonstrarmos o que realmente sentimos. Quase sempre não somos claros e assertivos o bastante. Sempre há uma agenda oculta influenciando os nossos likes. O "parecer" nos é mais caro do que o "ser".

O curioso é que, a fim de evitar os embates tão necessários para a nossa cultura e aprendizado, o maldito/bendito algoritmo do Facebook coloca, cada vez mais na minha timeline somente coisas que eu gosto. E vem de tudo: música, vídeos, anúncios, sugestões de amigos, grupos, ideias, matérias sobre marcas, economia, línguas, etc. Tudo o que eu gosto e que concorda comigo, com o MEU ponto de vista, com os meus discursos e paradigmas. Triste saber que somos manipulados o tempo todo, de maneira que nos encapsulamos num universo exclusivamente nosso, sem diferenças ou quaisquer tipos de relações dialógicas. A prova disso? Cadê o botão de dislike, Tio Zucka?