Humacacos = Macamanos
As iguais diferenças da nossa humanidade perdida (sem spoiler)

Um soco no estômago. Choque. Incômodo. Perda do apetite. Silêncio. Reflexão. Luto. Sim, carreguei todas essas sensações após assistir o filme "Planeta dos Macacos: a Guerra". Pelo visto não fui o único, considerando o silêncio reverente e solene que todos demonstraram ao sair em fila indiana no final da sessão. Talvez essa tenha sido a minha experiência cinematográfica mais intensa até hoje. Sofri na pele o efeito cinemático, me lembrando das aulas da Santaella, que já nos alertava sobre esse transbordamento do chamado "cinema expandido".
Para quem gosta e estuda semiótica, o filme é um prato cheio. A profusão de símbolos, metáforas, arquétipos e analogias é impressionante, exigindo-nos um amplo repertório sociocultural. As referências às tradições religiosas judaico-cristãs aparecem inúmeras vezes como na figura messiânica, imponente e redentora do macaco César, cujo nome-título nos remete aos imperadores (César para os romanos, Kaiser para os germânicos, Czar para os russos, etc), representando poder, liderança, autoridade e glória. Isso sem falar na própria raiz onomástica da palavra, que significa "cabeludo", sendo este nome mais que apropriado para um macaco super desenvolvido.
As similaridades messiânicas estão presentes no perfil de César, que em um cenário de constante ameaça, só pensa em salvar e proteger toda a comunidade de símios, a ponto de ser preso e humilhado numa cruz (sim, o símbolo maior do cristianismo também está lá!). Assim como Jesus pediu água na cruz e deram-lhe vinagre, César também pede, mas recebe outra coisa no lugar. Repare também nas inscrições do tanque de combustível localizado no campo de concentração do Coronel.
A decadência dos humanos mostra-se na mesquinhez de suas ações, na desconsideração dos laços familiares, na sua pretensa superioridade em relação aos macacos. Somos impelidos a fazer comparações entre os homens e os macacos, em como nos perdemos no meio do caminho, como criamos aberrações a exemplo dos campos de concentração nazistas e da escravidão humana, presente ainda nos dias de hoje. Afinal, os homens é que se parecem com os macacos ou são estes que se parecem conosco? Aqui, nem a linguagem nos diferencia mais dos macacos, visto que a garota Nova (mais um signo com uma potência enorme de sentidos!) emite apenas sons guturais, enquanto que César se comunica melhor do que muitos humanos.
"Então, o drama nos sugere que, o que realmente nos diferencia das outras espécies é a compaixão, o sentir com o outro a dor ou o sofrimento pelo qual ele passa".
Rousseau nos diria que a compaixão é o laço mais profundo que temos com os outros. No filme, ela está representada pelos abraços, pelas lágrimas, pelas decisões tomadas em favor do outro, mas também pela violência, pelos tiros de salvamento e pela revolta contra as injustiças.
Porém, o pano de fundo de toda a história está no fato de que todo ser humano ou macaco tem em suas mãos o próprio destino, podendo tornar-se bom ou mau. Sim, a proposta existencialista permeia fortemente a trama, suscitando um constante embate entre a retidão de caráter e a tentação de retribuir as agruras sofridas na mesma moeda, tornando-se assim um malvado, à semelhança do macaco Koba.
Talvez o maior trunfo da película seja demonstrar a miséria da raça humana, trazendo, no final da história, a constatação de que estamos todos juntos no mesmo barco, às vezes como heróis, outras vezes como vilões, sejamos nós humacacos (a menina Nova) ou macamanos (macaquinho filho do César).
