ANTONY FLEW — COMO SURGIU A VIDA?

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Quando a mídia divulgou que minha visão do mundo mudara, citaram uma declaração minha, na qual eu dizia que a pesquisa do DNA feita por biólogos mostrava, pela quase inacreditável complexidade dos arranjos necessários para produzir a vida, que uma inteligência devia estar envolvida nisso. Eu escrevera anteriormente que se abrira espaço para um novo argumento a favor do desígnio e para a explicação de como a vida surgiu de matéria não viva, principalmente porque essa primeira matéria viva já possuía a capacidade de se reproduzir geneticamente. Sustentei que não havia nenhuma satisfatória explicação naturalística para tal fenômeno.

Essa declaração provocou uma onda de protestos dos críticos que disseram que eu não conhecia o mais recente trabalho na área da abiogênese. Richard Dawkins declarou que eu estava apelando para um “deus das lacunas”. Em minha nova introdução à edição de 2005 de God and Philosophy, escrevi: “Estou encantado pelo fato de amigos, biólogos cientistas, terem-me assegurado de que estão produzindo teorias sobre a evolução da primeira matéria viva, e que várias delas são coerentes com todas as evidências científicas confirmadas até agora”. Mas a isso devo acrescentar a informação de que o trabalho mais recente que vi mostra que a atual opinião dos físicos a respeito da idade do universo deixa pouco tempo para que essas teorias de abiogênese cumpram sua tarefa.

Algo muito mais importante a se considerar é o desafio filosófico diante dos estudos da origem da vida. Muitos desses estudos são desenvolvidos por cientistas que raramente se ocupam do lado filosófico de suas descobertas. Filósofos, ao contrário, têm se manifestado pouco sobre a origem e a natureza da vida. A pergunta filosófica que não foi respondida pelos estudos da origem da vida é: como pode um universo de matéria sem inteligência produzir seres com intuitos intrínsecos, capacidade de reprodução e “química codificada”? Aqui não estamos lidando com biologia, mas com um tipo de problema totalmente diferente.

O ORGANISMO DIRIGIDO POR UM PROPÓSITO

Examinemos primeiro a natureza da vida de um ponto de vista filosófico. A matéria viva tem um objetivo inerente ou uma organização centrada num propósito que não existe em parte alguma da matéria que a precede. Em um dos poucos recentes trabalhos filosóficos sobre a vida, Richard Cameron apresentou uma análise bastante útil desse direcionamento dos seres vivos.

Algo que seja vivo, diz Cameron, também será teleológico, isto é, terá intuitos, objetivos ou propósitos intrínsecos. “Biólogos contemporâneos, filósofos da biologia e trabalhadores do campo da vida artificial”, ele escreve, “ainda precisam dar uma explicação do que significa ser vivo, e eu defendo a opinião de que Aristóteles pode nos ajudar a preencher essa lacuna. Aristóteles não acreditava que a vida e a teleologia se estendessem em conjunto simplesmente por acaso, mas definiu a vida em termos teleológicos, defendendo que a teleologia é essencial para a vida das coisas vivas”.

A origem da auto reprodução é o segundo maior problema. O ilustre filósofo John Haldane observa que as teorias da origem da vida “não oferecem explicação suficiente, porque pressupõem a existência em um estágio inicial de auto reprodução, e não foi demonstrado que isso pode surgir de uma base material por meios naturais”.

David Conway resume esses dois dilemas filosóficos numa resposta à alegação de David Hume de que a ordem do universo que sustenta a vida não foi planejada por qualquer forma de inteligência. O primeiro desafio é produzir uma explicação materialista para “a primeira vez em matéria viva surgiu de matéria não-viva”. “Sendo viva, a matéria possui uma organização teleológica que está totalmente ausente em tudo o que a precedeu.”

O segundo desafio é produzir uma explicação igualmente materialista para “como foi que formas de vida com a capacidade de se reproduzir surgiram das mais primitivas formas de vida, que eram incapazes de se reproduzir”. “Se não existisse tal capacidade, não teria sido possível o surgimento de diferentes espécies através de mutação aleatória e seleção natural. Assim também, tal mecanismo não pode ser usado para explicar como formas de vida com essa capacidade começaram a evoluir daquelas que não eram capazes disso.” Conway conclui que esses fenômenos biológicos “nos dão motivo para duvidar de que seja possível explicar as existentes formas de vida em termos puramente materialistas sem recorrer ao desígnio”.

UM GRANDE DESAFIO CONCEITUAL

Um terceiro conceito filosófico da origem da vida refere-se à origem da codificação e do processamento de informações essenciais a todas as formas de vida. Isso é bem descrito pelo matemático David Berlinski, que salienta que há uma rica narrativa cercando nossa atual compreensão da célula.

A mensagem genética encerrada no DNA é reproduzida e depois transcrita de DNA para RNA. A seguir, acontece a tradução, através da qual a mensagem do RNA é transmitida aos aminoácidos e, finalmente, os aminoácidos são agrupados em proteínas. As duas fundamentalmente diferentes estruturas da célula, de gerenciamento de informações e de atividade química, são coordenadas pelo código genético universal.

A notável natureza desse fenômeno fica aparente quando enfatizamos a palavra “código”. Berlinski escreve:

Por si só, um código é bastante conhecido, um mapeamento arbitrário ou um sistema de ligações entre dois objetos combinatórios separados. O código Morse, para dar um exemplo conhecido, coordena traços e pontos com as letras do alfabeto. Observar que os códigos são arbitrários é observar a distinção entre um código e uma conexão puramente física entre dois objetos. Observar que os códigos incorporam mapeamentos é colocar o conceito de um código em linguagem matemática. Observar que os códigos refletem uma ligação de algum tipo é devolver o conceito de um código a seus usos humanos.

Isso, por sua vez, leva à grande pergunta: “Pode a origem de um sistema de química codificada ser explicada de uma maneira que não apele para os mesmos tipos de fatos que convocamos para explicar códigos e linguagens, sistemas de comunicação, a impressão de palavras comuns no mundo de matéria?”.

Carl Woese, líder no estudo da origem da vida, chama atenção para a natureza filosoficamente enigmática desse fenômeno. Em um artigo na revista RNA, ele diz: “As facetas mecânicas, evolucionárias e de codificação do problema agora se tornam assuntos separados. Acabou-se a ideia de que a expressão do gene, como sua replicação, é sustentada por algum princípio físico fundamental”. Não apenas não existe um princípio físico que a sustente, como a própria existência de um código é um mistério. “As regras de codificação — o dicionário de tarefas dos códons — são conhecidas. No entanto, não dão nenhuma pista sobre por que o código existe e por que o mecanismo de tradução é como é.” Ele admite francamente que não sabemos nada a respeito da origem de tal sistema. “As origens da tradução, isto é, antes de ela se tornar um legítimo mecanismo de decodificação, estão, por agora, perdidas na penumbra do passado, e não quero me entregar a discussões sem base sobre se os processos de polimerização a precederam e deram-lhe origem, nem fazer especulações a respeito das origens de tRNA, dos sistemas de energização do tRNA, ou do código genético.”

Paul Davies focaliza o mesmo problema. Observa que a maioria das teorias de biogênese concentra-se na química da vida. “A vida é mais do que apenas reações químicas complexas”, ele diz. “A célula é também um sistema de armazenamento, processamento e replicação. Precisamos explicar a origem dessas informações e o modo pelo qual o mecanismo de seu processamento veio a existir.” Ele enfatiza o fato de que um gene não é nada além de um conjunto de instruções codificadas com uma receita precisa para a manufatura de proteínas. Mais importante, essas instruções genéticas não são do tipo que encontramos em termodinâmica e mecânica estatística, são, mais exatamente, informações semânticas. Em outras palavras, ela têm um significado específico. Essas informações só podem ser eficazes em um ambiente molecular capaz de interpretar o significado no código genético. A questão da origem agora se eleva acima de todas as outras. “O problema de como as informações significativas ou semânticas podem emergir espontaneamente de uma coleção de moléculas sem inteligência e sujeitas a forças cegas e sem propósito apresenta-se como um grande desafio conceitual.”

ATRAVÉS DE UM VIDRO ESCURECIDO

É verdade que os biólogos que estudam a origem da vida têm teorias sobre a evolução da primeira matéria viva, mas estão lidando com um tipo diferente de problema, ou seja, a interação de substâncias químicas, enquanto nossas questões são a respeito de como alguma coisa pode ser intrinsecamente guiada por um propósito e como a matéria pode ser controlada por processamento de símbolos. Mas o fato é que esses biólogos ainda estão muito longe de chegar a conclusões definitivas. Isso é enfatizado por dois proeminentes pesquisadores da origem da vida.

Andy Knoll, professor de biologia de Harvard e autor de Life on a Young Planet: The first Three Billion Years of Life, observa:

Se tentarmos resumir, dizendo o que sabemos a respeito da longa história da vida na Terra — sua origem, seus estágios de formação —, que fez surgir a biologia que temos hoje, penso que teremos de admitir que estamos olhando através de um vidro escurecido. Não sabemos como a vida começou no planeta. Não sabemos exatamente quando começou, nem em que circunstâncias.

Antônio Lazcano, presidente da Sociedade Internacional para o Estudo da Origem da Vida, comenta: “Uma das características da vida, porém, é certa: a vida não poderia ter evoluído sem um mecanismo genético capaz de armazenar, reproduzir e transmitir para sua descendência informações que podem mudar com o tempo. Como, precisamente, o primeiro mecanismo genético desenvolveu-se permanece uma questão sem resposta. O caminho exato que nos leve à origem da vida pode nunca ser descoberto”.

Quanto à origem da reprodução, John Maddox, editor emérito da revista Nature, escreve: “A questão prioritária é quando — e como — a reprodução sexual desenvolveu-se. A despeito de décadas de especulação, não sabemos”. Por fim, o cientista Gerald Schroeder observa que a existência de condições favoráveis à vida ainda não explica como a vida se originou. A vida pôde sobreviver apenas por causa das condições favoráveis em nosso planeta, mas não há nenhuma lei da natureza que ensine a matéria a produzir entidades dirigidas por um propósito e capazes de se reproduzir.

Então, como explicamos a origem da vida? O fisiologista ganhador do prêmio Nobel, Gerald Wald, fez um comentário que ficou famoso: “Optamos por acreditar no impossível, isto é, que a vida surgiu espontaneamente, por acaso”. Anos mais tarde, ele concluiu que uma mente preexistente, que ele apresenta como a matriz da realidade física, compôs um universo físico que gera vida:

Como é que, com tantas outras opções aparentes, estamos em um universo que possui um conjunto de propriedades peculiares que o torna capaz de gerar vida? Ocorreu-me, nos últimos tempos — devo confessar que isso causou um choque em minhas suscetibilidades científicas —, que essas duas questões podem apresentar um certo grau de congruência, levando à suposição de que a mente, em vez de ter emergido como uma consequência posterior na evolução da vida, tenha existido sempre como a matriz, a fonte e a condição da realidade física, e que a matéria de que é construída essa realidade seja matéria da mente. E a mente que compõe um universo físico que gera vida e que, com o tempo, desenvolve criaturas que sabem e criam: criaturas que produzem ciência, arte e tecnologia.

Essa, também, é a conclusão a que cheguei. A única explicação satisfatória para a origem dessa vida “dirigida por um propósito e capaz de se reproduzir”, como a que vemos na Terra, é uma Mente infinita.


Páginas 89 à 94