Até Breve

Fotografia Albert Pinho
Uma brisa fria soprava o calor do dia para longe, a lua brilhava dispensando todos aqueles pontos de luzes artificiais. Com os olhos molhados, a menina, que já se achava uma mulher com seu um metro e sessenta, tinha ajuda dos saltos roubados da mãe e olhava o barco partir para um destino que não poderia seguir. Levantou a mão para dançar seus dedos vermelhos descascados e disse uma única vez: até breve

A ilha estava cheia, muitos atletas corriam na areia fofa, mostrando ser algo fácil. Sua pele branca ficava vermelha com facilidade quando tentava, com esforço, correr por mais de vinte minutos pela calçada, quem dirá pela areia. Parecia dançar ao desviar seu corpo magro entre as mesas, seu cabelo liso, sempre solto, ia de encontro das garrafas e copos que carregava com proeza.

Não conseguia esconder um pequeno sorriso no canto da boca quando ouvia alguns clientes comentando sua beleza. Desviava de todas as cantadas que recebia, ao anotar, com grafia bonita, todos os pedidos. Sorria algumas vezes, mas nunca passava disso. Conhecia aqueles visitantes, que logo estariam com seus carros em balsas voltando para uma vida sem graça e sem praia.

Queria mais, queria a historia de amor verdadeiro, que jurava existir após todos os livros que não cansava de ler. Tentou uma vez com o caixa do mercado, que de romântico não tinha nada, viver algo bonito. Depois foi o rapaz da cafeteria, lugar bonito, de frente à praia, mas esse foi romântico demais, tanto que apenas ela não foi suficiente. Procurava alguém que entendesse e pudesse lhe entregar o amor que os livros mais lidos entregavam. Aqueles amores que se gravam nas telas dos cinemas e marcam, por uma vida, a carreira de quem interpreta.

- Bonita, por favor. Me veja uma cerveja e uma dose de whisky.

Virou o rosto e encontrou mais um visitante, que logo estaria distante. Aparentava seus trinta anos, mas sua pele morena poderia estar escondendo sua verdadeira idade. Seu braço levantado, pedindo por socorro, era forte. Tinha certeza que havia participado do campeonato, não duvidaria se tivesse ganhado. Acenou com o cabeça para mostrar que havia entendido o pedido e seguiu em direção ao caixa, onde colocaria a primeira comanda da mesa vinte e seis e seguiria para o balcão, pedir para que o Zé andasse logo com o pedido.

Saiu enquanto o pedido não estava pronto, para ver se mais alguém lhe chamava para bailar entre as mesas. Olhou para o céu sem nuvens, as estrelas iluminavam as pequenas ruas que, por pouco, não recebia carros durante uma semana qualquer. Um vento frio jogou seu cabelo no mesmo momento que escutou a sineta de metal, onde o Zé fazia questão de bater sem esperar, quando um pedido ficava pronto.

- Aqui está seu pedido, mais alguma coisa? - disse, colocando os copos na mesa com cuidado.
- Sim. Qual seu nome?
- Mariana, senhor…
- Prazer Mariana, me chamo Diego. Sente-se, me acompanhe nessa cerveja - disse galanteando da maneira que sabia bem.
- Estou trabalhando… - sentia a pele ferver.
- E que horas sairá do serviço?
- Não posso. - respondeu com um sorriso no rosto e saiu.

Bailou seu corpo entre algumas mesas para pegar mais alguns pedidos e copos vazios e parou em seu posto, perto da porta de entrada, onde conseguia escutar a sineta do Zé e conseguia ver as mesas com os clientes loucos por mais álcool. Corria o olhar por entre as mesas procurando mais pedidos e fazia um esforço fora do comum para não olhar Diego.

Tentou por algumas vezes saber, de longe, se Diego desejava mais alguma coisa. O ritmo de duas bicadas no copo de cerveja e uma no de Whisky haviam parado quando o segundo ficou vazio antes do primeiro. Assim que deixou o pedido, o viu pegar um papel e uma caneta e começar a escrever sem olhar para os lados. Talvez fosse algo mais interessante que a ilha, que seu bailar, que seu olhar. Caminhou lentamente até a mesa e retirou com uma delicadeza desnecessária o copo da mesa.

- Gostaria de mais um… - murmurou.

Acenou com a cabeça e caminhou até o balcão, fez um sinal para que o Zé colocasse outra dose e voltou de imediato. Olhou para o papel e encontrou mais palavras do que esperava encontrar. Diego escrevia rápido com sua letra corrida, tinha um traço bonito por mais que tentasse imitar alguns médicos para não ser lido. Voltou para seu posto antes que pudesse ser pega bisbilhotando as palavras que aquele moreno deixava no papel.

Corria o olhar para a vinte e seis ao atender a quatorze, lutava contra seu desejo de olhar mais aquele homem no canto, olhando para um papel sem vida e sem cor. Via-o escrevendo com vigor, com amor, palavras que ela não saberia quais. Tinha a certeza que ali estava um homem completamente apaixonado pelos livros, tanto quanto ela. Deixava a mente viajar. Viu o braço levantado e correu para atende-lo.

- Já que você não pode me acompanhar em mais uma cerveja, fecha a conta pra mim.

Acenou com a cabeça e soltou um leve sorriso. Correu o olhar na mesa e não encontrou o papel, apenas a caneta deitada ao lado do celular. Entregou a conta e saiu para pegar a máquina de cartão que havia esquecido.

- Não precisava buscar a máquina. Está em dinheiro e o troco é seu. Obrigado por brilhar mais que as estrelas no céu. - disse em um ultimo galanteio.

Mariana se virou e caminhou até o caixa, abriu o porta-conta e encontrou uma nota de cinqüenta junto com um papel dobrado com cuidado. Jogou a nota sem se importar com a caixinha e abriu o papel. Encontrou o que tanto procurava, as palavras que tanto lia. Falava do luar não tão bonito se comparado com o sol que não dormia, que encontrou em seu olhar. Do vento que era fraco por balançar com tão pouco tato os cabelos que queria se enroscar. As letras jogadas no papel entregavam o que queria encontrar.

Correu para a porta para procura-lo, mas não o viu. Foi para a rua, olhando para todos os lados sem o encontrar. Andou até o píer, para pedir que Iemanjá lhe trouxesse aquele moreno. Mas já era tarde, o via partir em um barco sem poder mais lhe amar.