Enquanto o Matthews toca


O som gritava uma música qualquer do Dave Matthews enquanto abria uma segunda garrafa de vinho. O cômodo estava escuro, como da última vez que tomou vinho ao som desse cara que tentava preencher o vazio de estar sozinho dessa vez. Fechava os olhos todas as vezes que tomava um gole do vinho e a via sentada no canto do sofá. Falou uma ou duas vezes, esperando que uma voz doce, carregada de sotaque, aparecesse no meio da escuridão com todas as respostas. Mas não encontrava. Completava a taça com vinho, mas não sentia o perfume das uvas entrarem em seu nariz, apenas o perfume da amada dominava aquele cômodo, que não deveria, mas estava frio demais.

Colocou a taça no braço do sofá e usou as duas mãos para secar as lágrimas que caiam sobre seu rosto. Levantou, acendeu a luz e ficou alguns minutos parado olhando o porta-retratos que retratava bem que ali existe amor. Virou a cabeça e encontrou a almofada que dizia juntos para sempre. Não que as almofadas estivessem mentindo, mas queria acreditar, que quem a comprou disse a verdade. Fechou mais uma vez os olhos e a imagem era sempre real, balançava os braços tentando abraça-la, em vão.

A música mudou novamente, os acordes ficaram pesado e sentia as cordas do violão vibrarem no ritmo de seu coração, que batia forte e se fazia ouvir. Sentou em um canto do sofá, deixando espaço suficiente para que no outro canto se sentasse seu amor, que não viria aquela noite. Uma noite que não acabava, por mais que torcesse para que o fim chegasse logo, não acabava. Vivia o presente com sonhos do passado que não lhe entregariam o futuro tão sonhado. O futuro que agradeceu a Deus todos os dias por ter recebido. Algo nunca sonhado, que não imaginou ser real, ser realizado. Estava, agora, ali parado. Sem saber como realizar.

Um sorriso escapou em sua boca ao lembrar de como tudo começou, da festa, da praia, do beijo no lugar mais estranho. Seu peito encheu ao saber que não queria apenas beija-la, mas sim, ama-la para o resto da vida. Sentiu o calor que sempre o dominava ao encontra-la, sentiu o coração bater mais forte, como se fosse um enfarto precipitado, mas que apenas lhe mostrava ser amor. Chorou, mais uma vez com as mãos no rosto, chorou. Ao se lembrar que todo aquele amor, estava ali, em dois corações separados por uma distancia que não precisava existir. Chorou mais ao saber que não existiria coisa no mundo que pudesse fazer para arrumar aquilo. Rogou, com todas as forças, para que conseguisse entender o motivo de não poder preencher aquela taça vazia do outro lado do sofá com amor.

Pensou em todas as maneiras que tentou resolver o assunto, todos modos que usou para tentar encontra-la, tentar conversar e explicar que é amor, que pode acontecer problemas, mas não deixará de ser amor. Tentava compreender como ela não entendia que fez de tudo por amor. Gritou o mais alto que pode.

“Eu te amo! Não consegue ver isso?! Tento tudo por amor!!! Só isso!!!”

Não conseguia acreditar que foi visto como um louco por querer viver esse amor. Foi visto como um desequilibrado por tentar, da melhor maneira possível, resolver tudo e ficar bem. Não estava desequilibrado, apenas louco. Louco de amor, cheio de saudades. Não via problemas em resolver da maneira que tentou, queria apenas que ela parasse de se esconder e lhe olhasse nos olhos ao dizer que ali, já não existia mais amor. Queria escutar essa mentira pessoalmente ou descobrir a verdade ao olhar nos olhos.

As últimas gotas da segunda garrafa já faziam parte do último gole que virou com vigor antes de colocar o Dave para tocar novamente, dar mais um beijo em pensamento de boa noite e abraçar a almofada com força em seu peito para tentar dormir naquele lugar gelado, que não deveria estar assim, mas que só esquentaria, se a saudade fosse embora e lhe deixasse o seu amor…