Imagem Pixabay

Só hoje ele não vai te amar

Abaixo da flor, deixou os bilhetes que queria enviar. A rosa vermelha morreu ao esperar e os bilhetes resolveu guardar. Não sabia ao certo para que, nem bem o que iria fazer. Mas como em um tratamento em grupo, hoje ele conseguiu não amar. Amanhã, outro dia será.

Depositou o mais novo bilhete junto aos outros, sem se preocupar com a grafia, pois sabia que ninguém o leria. No calendário riscou o centésimo dia de um amor que ali morria, dia após dia. Lutava sozinho, da maneira que lutava contra tudo, para mais um dia não amar. Mais um dia mentir e seguir firme nessas mentiras que o faziam melhorar.

Estampava um sorriso forçado ao levantar. Corria para descarregar e bebia para lembrar tudo que lutava para no passado deixar. Se perdia nas horas, rodava na noite a procura do sono que insistia em não voltar. Fingia não ligar, quando fugia ao te avistar. Soltava um sorriso amarelo em pensamento ao ver seus olhos belos fugirem dos seus. Seu nome ele ouviu chamar.

Pensava no passado e em uma forma de viver naquele que não voltará. No presente ele ficará mentindo para poder lutar. Ficando acordado para não sonhar. Desejava voar apenas até o sétimo andar para lhe encontrar e uma boa noite lhe entregar. Mas não queria mais amar. Seu tratamento não poderia parar.

Pecava ao andar até um maldito lugar, sentar no canto de um restaurante barato e o pior sushi comprar. Mas os bilhetes que ali escrevia lhe bastavam para o caminho de casa trilhar. Hoje? Hoje ele não vai te amar. Amanhã pode ser que vá.

Os rastros que o levavam aos restos que conseguia pegar lhe faziam bem. Vivia a guardar e alimentar um amor que não iria acordar. As poucas lágrimas que desciam pelo seu rosto frio não faziam sentido, para aquele que acabou de riscar o centésimo dia sem amar.

Conseguia enganar bem, não só ele, como a todos dizendo seguir um caminho sem sentido. Mentia no hoje que tudo acabou, assim como ela mesmo o ensinou, dizendo não existir mais amor. Sorria. Sorria ao saber da mentira que ouvia. Mentiras que não conseguiam cortar um maldito laço invisível de saudade que ligavam os dois.

Fechou os olhos para tentar dormir, mas não encontrava o tal do sono, apenas um abraço longo que o fazia transpirar. Encharcava a cama com o suor do corpo ao dormir e amar, mas essa noite, não iria transpirar, pois novamente sozinho iria ficar. Tentava mudar os pensamentos e para longe mandar as lembranças. Pois sabia que o amanhã, hoje será. E assim como hoje, ele não vai amar.