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Um colchonete para dois

O quarto estava tomando pela luz quente que um abajur deixava escapar. Sentado no canto da cama, de cabeça baixa, deixava escapar algumas lágrimas. Um misto de frustração e saudade. Ouvia a chuva bater na janela e sentia vontade de sair correndo nu, da maneira que estava, pelas ruas. Uma tentativa simples de lavar a alma, o corpo e mente. Uma vontade de deixar tudo para trás.

Esticou o braço e puxou sua calça, que estava jogada no chão daquele motel barato. Com todo o tempo do mundo, tirou um maço de cigarro, pegou com calma um e o deitou em seu lábio. Tirou o isqueiro que havia dentro do maço e o girou três vezes na mão, antes de acender o cigarro que lhe entregaria algum prazer, que não sentiu naquela noite.

Mergulhado em seus pensamentos, esqueceu que um corpo lhe fazia companhia naquela cama. Voltou a realidade ao escutar o barulho da cama, reclamando dos corpos que nela se deitavam para transar. Sentiu uma mão pequena e quente tocar suas costas. Nenhuma palavra foi dita. Viu apenas a outra mão depositar o cinzeiro ao lado de sua perna esquerda.

Bateu com o cigarro, que não havia queimado tanto para ser batido, no cinzeiro e levou-se. Deixando aquela mão quente, sem um corpo para tocar. Caminhou nu e broxa até uma pequena geladeira, para pegar mais uma cerveja. Abriu a lata e deu um grande gole. Com o cigarro em uma mão e a cerveja na outra, virou-se e encontrou o que havia deixado para trás. Uma linda mulher deitada na cama.

Era linda, com seus cabelos pretos cobrindo um travesseiro duro, que não foi posto para uma noite de sono. Suas pernas davam um nó no lençol ainda dobrado, e seus braço protegiam os seios, pouco fartos, para que não fossem vistos. Encontrava em seu olhar desejo e compaixão. Uma compaixão que não tomou o lugar do tesão, que antes ali estava.

Preso em um passado que não queria abandonar. Se perdia em noites inteiras a procura do sono. Não em poucas, se encontrava em camas. Com mulheres lindas, que muitos não acreditavam que conseguiria, mas conseguia. No primeiro momento, em um sorriso que não disfarçava, sentia orgulho de ali estar. Em um segundo, era tomado pela lembrança do passado, que batia com força e seu corpo deixava de funcionar.

- Desculpe. — disse olhando a linda morena na cama. — É a primeira vez que isso me acontece.

Anotou em sua mente que aquela fora a terceira vez na semana que falava aquilo. Uma mentira que não sentia culpa em contar.

Viu aquela mão quente o chamar para cama. Caminhou até o móvel encostado, arrastando o pé no piso frio. Colocou a lata e jogou o final do cigarro dentro para apagar. Foi recebido com beijos quentes de alguém que não queria apenas beijos.

Fechou os olhos e pegou a máquina do tempo que havia em sua mente. A data já estava definida e fazia de tudo para não abrir os olhos e encontrar aqueles cabelos pretos em sua frente. Viajou e sentiu seu corpo funcionar. Como se ali não estivesse mais.

Em seus pensamentos encontrava um teto branco, sem espelhos. Uma cama estava posta e pronta para ser bagunçada. Na televisão passava qualquer seriado, que não fazia questão de assistir. Apenas um colchonete lhe chamava atenção. Estava posto ao lado da cama, no chão. Lembrou de verificar se a porta estava realmente trancada e aumentar o volume da televisão, antes de jogar seu corpo suado em um espaço que não fora feito nem para um corpo magro.

Apenas um filete de luz entrava pela janela, tentando iluminar o quarto, que não precisava ser iluminado. Conhecia cada pedaço e curva daquele corpo que sua mão passeava. Conhecia o cheiro, o toque e o gosto. Sabia por onde começar e onde terminar. Começava a sentir um prazer que jurava ser curto. Queria sempre mais, beijar mais, amar mais, viajar mais. Em delírios, prazeres e amor. Não importava o calor, naquele corpo queria encaixar seu corpo.

Em uma jura de amor eterno, se deixava levar e caminhava sem medo do abismo que iria encontrar. Sentia seu corpo funcionar da melhor maneira que um dia funcionou. Agarrava com força aquele corpo quente e puxava contra o seu. Estava tomado por um tesão, sentia o corpo derreter em um suor que, nem o mais forte vento gelado poderia esfriar. Sabia que de muito, seu gozo não iria demorar.

Um gemido surdo veio antes de seu ápice de prazer. Sentiu na hora o corpo estremecer e se deixou amolecer antes de abrir os olhos e encontrar os cabelos pretos, molhados, em seu corpo grudado. Sentia-se satisfeito pelo feito e mentira. Ainda puxando aquele corpo quente contra o seu, como em um último suspiro, via as mãos pequenas, daquela que o fez viajar em um passado, segurando com todas as forças um travesseiro.

Não estava no colchonete que pensou estar. Nem no passado que, ao fechar os olhos, conseguiu viajar. Mas sorriu, antes de pegar outro cigarro e se jogar na cama, mais dura e fria que o maldito colchonete. Deixou o ar gelado, que de uma máquina saia, banhar seu corpo úmido. E em uma última lembrança, deixou os cabelos pretos seu peito cobrir, antes de seu corpo desligar.