Octopath Traveler e a Urgência do Conflito

Não é nenhuma novidade que as narrativas dos games evoluíram bastante ao longo do tempo. Contudo, ainda é comum a utilização de motes bem básicos para introduzir o jogador em games de aventura. Um exemplo dessa simplicidade é Octopath Traveler, jogo lançado pela Square Enix para o console Nintendo Switch.
Trata-se, na essência, de um RPG Japonês clássico, no qual acompanhamos a trajetória de oito personagens, cada um com sua própria história, sem interseções bem demarcadas. Mas é interessante perceber que nem todas essas histórias possuem o mesmo potencial para despertar curiosidade no jogador. Todas elas contêm elementos já vistos em alguma narrativa, mas algumas conseguem atrair maior atenção.
Não há nada de grandioso no primeiro capítulo da história de Alfyn, um boticário (farmacêutico) que deseja sair pelo mundo ajudando pessoas, por mais nobre que possa ser essa missão.
Ainda que possua um agradável tom aventuresco, também não se mostra muito atraente a jornada de Tressa, uma mercadora que quer viajar e conhecer o mundo.

Da mesma forma, também não causa grande impacto a expedição de Therion, ladrão que ao realizar o roubo de uma peça valiosa se vê obrigado a continuar sua saga e recuperar outras peças perdidas pelo mundo.
A busca de H’aanit por seu mestre — que saiu em uma caçada e não retornou — , embora seja uma demonstração de coragem e nobreza, não desperta nada maior do que um leve desejo de saber como tudo vai acabar.
A peregrinação de Ophilia para acender as Chamas Sagradas ao redor do mundo possui um tom confessional que não se mostra suficiente para esconder o fato de que se trata de uma clássica aventura de RPG.
Na história de Cyrus, um estudioso engajado na busca de um misterioso e antigo tomo que trata de magia proibida, já há um elemento mais consistente para atiçar a curiosidade do jogador, visto que o livro buscado aparentemente foi roubado da biblioteca do reino onde o protagonista vive.
E por fim, as duas histórias que merecem destaque: 1) Primrose, que se refugiou em uma cidade no meio do deserto, onde trabalha como dançarina e busca incessantemente informações que levem ao paradeiro dos três assassinos de seu pai; e 2) Olberic, guerreiro que após viver um tempo no exílio resolve sair em busca de um velho conhecido que causou a queda — e a morte — de seu rei.

Qualquer descrição sumária já revela que uma tragédia e/ou grande perda ocorreu em ambos os casos, bem como que a vingança é o sentimento que move os personagens. Isso demonstra claramente a necessidade de um bom conflito para mover uma história adiante.
Outro aspecto interessante é que os conflitos são apresentados de forma clara logo no início das cutscenes dos personagens, ou seja, as histórias já começam produzindo impacto no jogador, que consegue facilmente assumir o lugar do personagem e compartilhar de seus sentimentos.
Nada impediria que os outros personagens, ao longo de suas jornadas, fossem colocados em conflitos tão interessantes quanto os que foram citados aqui, mas certamente o resultado não seria o mesmo. Isso porque o engajamento e a curiosidade precisam ser tratados com urgência e logo no início da narrativa. Não há muito espaço para amenidades e coisas corriqueiras. O que o espectador quer mesmo é ver o circo pegando fogo, e rápido!
Embora a história não seja o único elemento capaz de atrair o jogador, construir uma boa narrativa é algo que deve tratado como prioridade na indústria de games. Afinal, se há tanto apuro técnico em elementos ligados aos gráficos e mecânicas de jogo, nada justifica que a base ficcional que compõe os jogos com storytelling seja tratada como algo secundário. Nesse quesito, Octopath Traveler atira em vários alvos mas só acerta em cheio em alguns. Apesar de tudo, o game tem o suficiente para garantir várias horas de diversão a quem quiser experimentá-lo.
