tempo

rebeca
rebeca
Aug 31, 2018 · 3 min read

tempo

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de segunda a sexta, ao sair do trabalho, a primeira coisa que faço é levantar a cabeça e dar uma olhada no céu. todos os dias. eu desço as escadas que dão para a porta do escritório e olho para o céu. quando escuro, quando claro. quando chove, quando troveja. quando ensolarado, quando nublado.

ao olhar para cima, em meu rosto, se forma um sorriso. todos os dias. as vezes o sorriso é acompanhado de uma gargalhada, as vezes por lágrimas. minha mente se inunda de pensamentos. mas ao olhar para o céu, eu paro. e sorrio. essa minha tia, essa minha tia.

teve esse dia, ainda no brasil, que essa minha tia, pelo facetime me disse, olhe para o céu. eu não sei direito o porque dela falar isso, mas desde então, eu sempre olho para o céu. todos os dias ao voltar da faculdade, quando no brasil, continuando aqui, ao sair do trabalho.

presenciei deslumbrantes céus estrelados, magníficos pores do sol. céus coloridíssimos, do alaranjado ao esverdeado. nuvens cinzentas e carregadas. azulões. céus brancos, neve, nevoa. luas crescentes, minguantes, novas, cheias. luas vermelhas, e não luas.

hoje eu também olhei para o céu quando sai do trabalho. nublado, cinza escuro. sorri. dei os primeiros passos, me afastando do prédio. continuei com a cabeça erguida, olhando para a imensidão do céu. minha mente flutuava meus pensamento para longe. tropecei.

leves pingos caíram em meu rosto: droga, preciso me apressar. vesti o capuz da capa de chuva, que privilégio, pensei. voltei meu olhar para o céu. pensei de novo, lembrei.

lembrei das pessoas que vivem em Moria. lembrei daqueles que esperam uma resposta para continuar as suas vidas. lembrei daqueles que ainda estão em meio a destruição de guerras. lembrei da mãe que não foi reconhecida pelo próprio filho e que se recusava a ficar em seu braços, após traumática separação. lembrei daqueles que perderam tudo devido as fortes chuvas. lembrei daqueles que não tem por falta da chuva. lembrei das eleições no brasil. lembrei daqueles que foram expulsos do brasil a gritos. lembrei da minha família. lembrei dos meus amigos que lutam contra a depressão. lembrei do pastor que tirou sua vida. lembrei das tantas vezes que eu quis tirar minha vida.

eu fico absorta em meio a pensamentos. não percebo que nesse meio tempo, nesses 15 minutos de caminhada entre o escritório e minha casa, eu ficará completamente molhada devido a doce chuva que caía. sim, a chuva apesar de ácida, chegava docemente em meu rosto.

eu sou abençoada e por isso sempre irei tentar criticar, sempre irei tentar saber e debater e por a tona as tragédias. e lembrar. e fazer.

tempo.

tempo.

agradecer. obrigada pela música. pelos poetas. pelos prosadores. pela comida. pela sopa do almoço. pelo pão. pela aveia com chocolate. obrigada pelo céu. obrigada pela chuva. obrigada pelo frio. pelas flores. pelo meu voluntariado. pelo Christliche Dienste. pelo time. pelo querido time. pelas doces crianças. pela Hausgemeinschaft. pelos seminários. pelos cometas (amizades cometas). obrigada pela minha casa. pelas migas. pelos migos. pela internet. pelas flores. pelo chão (e café). pelos cachorros. pelas lembranças. pelas viagens. pelo passado. pelo presente. pelo futuro.

obrigada por me tirar de pensamentos pessimistas, sem esperanças.

obrigada por me dar vida.

    rebeca

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    rebeca

    abismados na bruma enegrecida julgo ver nos reflexos de minh’alma as mesmas nuvens deslizando em calma os nimbos das procelas desta vida