Os Ciclos Econômicos e o Intervencionismo

O mercado, muito mais do que um conceito, é o nome que damos ao conjunto de relações econômicas entre os indivíduos da sociedade. Sua lógica e sua transformação ocorrem de forma independente de uma grande mente organizadora, onipotente e onisciente. O mercado se traduz pelo conjunto incontável de etapas pelos quais passam o capital e os recursos naturais para atender às necessidades humanas. 
 Cada indivíduo, ao adquirir um produto ou serviço, dá seu pequeno voto de importância a todos os processos que foram necessários para sua criação. Ao comprar, o indivíduo não só sacia uma necessidade que possuía, como financia e distribui recursos e incentivos por toda uma rede de produção e pessoas, realizando assim uma interação social num nível nunca antes visto antes da Revolução Industrial.
 O mercado, por estar moldado e ser um reflexo da sociedade, está sempre mudando junto a ela. A moda muda, pessoas criam novos inventos, as pessoas mudam suas necessidades e, com isso, toda a disposição da estrutura produtiva (maquinário, mão de obra, comércio) está em constante reajustamento para que tanto consumidores quanto produtores melhorem suas condições de vida.
 Concretamente, isso implica no constante surgimento e desaparecimento de empresas e de tecnologias. Neste processo, fábricas são completamente reestruturadas para produzir um produto diferente ou melhor, e trabalhadores são demitidos de uma atividade e vão para outra.
 A perfeita adequação do mercado às necessidades dos consumidores não é somente uma tendência, como é a finalidade de seus agentes. Porém, em 1928, a partir do crash da bolsa de Nova Iorque, e da Grande Depressão que ocorreu a seguir até o fim da década de 1930, surgiram inúmeras teorias econômicas, com ênfase à Teoria Geral de Lord John M. Keynes, que explicam os ciclos de crescimento e recessão econômica como sendo decorrentes de uma crise de superprodução.
 A crise de superprodução ocorre quando, em determinado momento, a capacidade produtiva de uma economia deixa de funcionar em todo seu potencial. Em outras palavras, as indústrias, após passarem por um período de crescimento vertiginoso, não encontram mais compradores dispostos a consumir suas mercadorias, e são obrigados a demitir funcionários, inutilizar suas máquinas e deixar de investir.
 O mundo capitalista tem vivido ciclos de expansão econômica, seguidos de profundas recessões que, para muitos, se mostraram como um mal inerente ao sistema. Mas como explicar, então, que numa ordem econômica completamente voltada para ao atendimento de consumidores, possam ter surgido investimentos gigantescos sem que houvesse compradores finais?
 A Escola Austríaca de economia corretamente aponta que as crises econômicas de forma alguma são endêmicas à economia de mercado autêntica, isto é, sem qualquer espécie de intromissão por parte do estado em todos os níveis de relações entre os indivíduos praticadas de forma mutuamente voluntária. Pelo contrário, o processo de expansão sem demanda, e a inevitável crise decorrente, ocorre especificamente através da concessão e proteção de privilégios garantidos a entidades privadas, especialmente os bancos.
 A solução keynesiana para as constantes crises de superprodução se baseiam em aumentar em quanto for possível o consumo. Desta forma, toda a estrutura produtiva que ficaria ociosa durante o período de recessão passa a ser constantemente utilizada para alimentar a demanda, e com isso a economia poderia ficar numa eterna situação de emprego e produção plenos.
 Atraente como aparenta, políticas do tipo keynesianas têm sido aplicadas há mais de um século em todo o mundo. No setor bancário, elas se expressam pela redução artificial de juros e fornecimento de crédito fácil para os empresários, para que possam fazer todo tipo de investimento conforme quiserem, ainda que os bancos não possuam dinheiro em caixa o bastante para pagar seus credores.
 Ou seja, o banco possui em seu ativo todo o dinheiro dos clientes que realizaram depósitos na instituição. O banco não é de fato proprietário do dinheiro nele depositado, na medida que não pode se utilizar como quiser dele. Ao banco cabe apenas a custódia do dinheiro, e faz parte do contrato de depósito à vista a pronta entrega do dinheiro ao cliente, sempre que solicitado. Fica claro que somente é possível garantir que todos os clientes terão seu dinheiro requisitado se o banco mantiver a totalidade depositada em seus cofres. 
 Porém, os privilégios estatais, baseados na teoria keynesiana de estímulo ao consumo, tornaram não só possível, como uma prática segura aos bancos não respeitar a guarda do dinheiro dos depositantes, utilizando-o para aumentar as reservas do banco disponíveis para crédito aos empresários. Desta forma, adquirir dinheiro para investimento, a princípio, torna-se barato e fácil.
 É desta forma que os bancos “criam” dinheiro do nada. Pois os clientes depositantes, por um lado, comportam-se e consomem acreditando ter seguramente disponível todo seu dinheiro guardado. Por outro, o dinheiro está na realidade sendo em boa parte utilizado pelo banco para fornecer crédito. As mesmas unidades monetárias são utilizadas de duas maneiras distintas ao mesmo tempo.
 Esta prática por parte dos bancos são a causa inicial da maioria das crises econômicas, pois o setor empreendedor da sociedade passa a investir em projetos sem que haja, no conjunto de riquezas da sociedade, os recursos disponíveis. Ora, se para todo investimento é necessária uma poupança prévia, sacrificando-se os gastos no presente para um usufruto coordenado e racional no futuro, quando nem os depositantes, nem o banco e nem os empreendedores poupam recursos, todo investimento que fizerem será baseado em fundos que não existem.
 O resultado da prática de concessão de crédito artificialmente facilitado é o investimento em negócios que não são de fato viáveis e sustentáveis, pois há um imenso incentivo à produção de bens de consumo (taxa de juro reduzida, fácil obtenção de crédito), sem que ninguém esteja economicamente disposto a consumir os bens oriundos desses investimentos.
 Como pode ser sustentável um sistema bancário concedendo créditos utilizando dinheiro que deveria manter disponível a seus verdadeiros proprietários? Recorrentemente, a quantidade de dinheiro requisitada pelos depositantes é superior ao que o banco manteve em caixa. Porém, ao redor de todo o mundo, governos e oligopólios bancários criaram Bancos Centrais que, em cada país, tornaram-se os pagadores de dívidas dos bancos de última instância, literalmente imprimindo dinheiro para ser usado pelos bancos para pagar a seus credores, causando inflação numa economia já sofrendo fortes quedas em investimento.
 O estado é a única entidade que foi capaz de acumular poder tal, que fosse utilizada pelos bancários para realizar atividades que nenhum indivíduo mais poderia fazer sem correr imensos riscos de falência, desprestígio e endividamento. Criaram suas próprias instituições estatais e suas próprias legislações protecionistas que tornam toda sorte de atividades bancárias contrárias ao princípio de propriedade privada e às leis do mercado naturais e seguras de serem realizadas. Os ciclos econômicos são, portanto, consequência inevitável da ação do estado sobre os mais altos círculos do poder financeiro, concedendo privilégios e seguranças jamais possíveis de haver em um mercado livre de fato.

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