Jornada Rubra Moderna

Na situação que aquele homem se encontrava, fazer o que ele queria fazer era fácil pra qualquer outro homem. Ele sabia que ela se encontrava no apartamento naquele momento, mas o que lhe faltava era coragem. Alguns dizem que a história de amor desses dois era uma das mais bonitas vividas até hoje, mas você sabe: essas bocas do mundo…

E ele estava lá, parado que nem um bobo na frente do prédio, segurando um buquê de flores, tremendo de cima em baixo. Apesar do nervosismo, ele tinha muito amor. Ela era sua existência. Os transeuntes passavam e viam a cena que aquele cara produzia. Parecia um amante do século XIX: buquê de flores numa mão, na outra um cigarro, a barba por fazer, as olheiras tomando lhe a face, o céu cinzento como sempre. O prédio era branco, ou melhor, encardido, sujo pelo tempo e tinha até um cachorro também encardido (mas desta vez pela lama), vagabundo, dormindo na frente do edifício. Ele acordou, viu a cena e dormiu. Parecia até uma pintura moderna…

Quem passava por ali não imaginava a história que já haviam contado as bocas. Como já dito, tudo fora muito belo no passado. No passado. Acredito que você já tenha em mente como é um relacionamento nesta era líquida: você conhece uma pessoa e ambos sabem que não há problema com relação ao descarte do próximo. E assim vai até você achar que encontrou uma alma gêmea e acredita que esta pessoa é pra sua vida toda. Vêm assim as juras de amor, os votos, o casamento. Entretanto a modernidade é líquida e tudo o que é sólido se desfaz (como já diria o profeta apocalíptico Bauman). Inevitavelmente alguém faz algo de errado, o descarte ocorre e volta o ciclo novamente.

Enfim, e com esses dois a estória não foi diferente. Ela encontrou um ‘outro’ no emprego… Ele descobriu… Terminou tudo… No divórcio o advogado dela foi melhor que o dele… Ele perdeu o apartamento e grande parte dos móveis… Ele estava bravo… Irado… Mas ele ainda a amava e lá estava ele, cavalheiro aparente, com os olhos cansados, olhando o prédio. As bocas diziam que ele era o vagabundo, o canalha e que ela estava certa de ter feito o que tinha feito. Os parentes do homem adoravam ouvir as bocas. Eram da elite provinciana. Isso fez com que ele fosse mal visto por toda a família. E em pouco tempo ele já tinha sido expulso pelos familiares, pelos amigos e pela província, digo, cidade inteira. Ele ainda acreditava que ela poderia mudar.

Ele cria que sua vida iria um dia voltar a ser o conto de fadas que costumava ser. Mas ele sabia que não voltaria. Era um momento de decisão na sua vida. Era mais um trago no cigarro e tudo iria mudar. Ele iria subir naquele apartamento e acabaria com o seu sofrimento. Ele tinha muito amor ainda para dar. Era muito amor…

O cigarro já havia dado seu último suspiro. O sinal do trânsito havia fechado. Ele atravessou a rua com aquele buquê na mão. O cachorro sujo ainda dormia na frente do prédio. Ele cumprimentou o porteiro como sempre fez. Ele subiu as escadas. Degrau por degrau. Sem elevador desta vez. Ele subia sem pressa. Passo a passo. Apartamento 402, apartamento 403, mais alguns apartamentos ele terminava a sua dor cósmica. Apartamento 407, apartamento 408. Chegou. Ele suspirou calmamente. Girou a maçaneta. Era o momento.

Ele entrou com passos silenciosos pelo chão de taco. Ela se encontrava passando roupa virada para a televisão perto da janela. Um taco claqueteou solto no vasto chão de tacos. Ela se virou. Ele pegou o buque. Ela sufocada contra a janela. O amor exalava do cano do seu revólver calibre 32. Cinco tiros para sua amada e um para si próprio. A mesma porcentagem da divisão dos bens. O sangue espirrou pelas janelas. Ele descarregou seu amor por ela e encerrou seu sofrimento junto com sua existência.

Os disparos assustaram os moradores, assustaram os transeuntes, assustou o porteiro. O cachorro vagabundo apenas abriu levemente o olho. E ele podia ver a nova cena com seu olho semi-cromático: um prédio preto, branco, com as janelas vermelhas. O cachorro sujo, que já prevera desde o começo toda a cena, resolveu então continuar a cochilar, numa tranquilidade de dar inveja a qualquer transeunte.

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