Pequeno Conto Realista

Ainda me lembro dos meus velhos tempos de moleque. Quando digo moleque, é claro, me refiro às minhas 25 primaveras. Você deve estar se perguntando, um moleque de 25 anos? Caro leitor, quando você chegar nos 84 invernos como eu, releia esta introdução e veja se mudou de opinião, mas isso não vem ao caso, não é a minha história que vou contar, mas de um caso muito curioso que aconteceu lá na minha cidade…

Se eu não me engano foi mais ou menos em 1969 ou 70, estávamos no governo de Médici e a histeria anticomunista junto com o AI-5 estava varrendo as ruas do Brasil. Citar Lênin ou Marx era prisão na certa. Lá em São Paulo, onde morei por muitos anos, tive um grande amigo jornalista que trabalhava numa dessas revistas sem sal nem açúcar. O nome dele era João Batista dos Santos, mais conhecido como Pique, por causa de seu grande bigode terminar em um fiozinho arrebitado. Rapaz honesto, dedicado, sem sorte alguma. Azar era com ele mesmo. Morava numa pensão de uma simpática senhora chamada Aurora, que, aliás, eu visitava de tempos em tempos para saborear seu delicioso bolo de fubá.

Voltando ao Pique, ele não gostava de política. Simplesmente odiava, mas a sua sorte o levou a conhecer dois comunistas e, graças a isso, seu nome fora publicado num jornal como comunista. Bom, nome no jornal, amigos comunistas, bigodão de marxista, se não era o Machado de Assis, era um extremista de direita fascista e subversivo. Não me lembro muito do que aconteceu, minha cabeça anda fraca ultimamente, mas só sei que Pique saiu da pensão de dona Aurora e foi como um foragido para a casa de Edgar.

Cheguei a conhecer Edgar, mas não era tão amigo assim dele. Ele era um agente de seguros. Dizem as línguas do mundo que os dois haviam se conhecido numa greve do Brás um tempo atrás. Edgar reconheceu Pique no ônibus e, ao saber do ocorrido, chamou Pique para dormir em sua casa. Aline era a esposa de Edgar, linda de morrer. Uma mistura de Brigitte Bardot com Marilyn Monroe. Gentil, educada e alegre. Parece que estou a idealizando, mas é a verdade. Para não dizer que sou um romântico cego, suas pernas eram tortas, mas de defeitos apenas este.

No dia seguinte Edgar impediu Pique de sair de sua casa. Disse a ele que ficasse mais um dia. E assim foi, mais um dia, mais um dia, mais um dia…

Dizem as vozes do povo que Aline começou a dar em cima de Pique enquanto Edgar ia trabalhar e Pique acabou cedendo aos prazeres da carne com as pernas tortas de Aline. Estas mesmas vozes dizem que após um tempo, Edgar descobriu tudo e expulsou Pique de sua casa e numa noite, ao chegar embriagado e com o velho rancor dos traídos, a sua redundante cólera da raiva fez com que Edgar matasse Aline.

Pique, jogado (literalmente) na Rua da Consolação, sem emprego e sem lar, mal sabia que Edgar já havia notificado à polícia. Pique foi preso e torturado até a morte logo em seguida. Uns dizem que isso é uma tragédia, outros dizem que foi a justiça de Deus. Eu não sei, mas se fosse eu na pele de Edgar, eu com certeza teria pegado minha viola e tocado um tango argentino para traídos, assim como eu estava fazendo antes de começar a escrever esse texto.

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