Àquela que virá

Desliga a tevê. Mas se deixa ficar ainda uns minutos assistindo, imóvel. A notícia em reprise, em reprise, em reprise,

…Dentro dele. “Como é possível? Isso é pesadelo, é pesadelo, é um fim do mundo… Como pode haver gente assim?”. A vontade é o choro, a ânsia é o vômito, a boca amarga com o olhar revendo — mesmo apagada a tela, ainda que fechados os olhos.

A cena em replay, em replay, em replay,

…Precisa parar de pensar nisso.

Precisa parar de ver esses jornais. (Parar de ver o mundo?)

Voltar a dormir? O mundo inflou a insônia. Como um menino de 6 anos, teme agora os monstros que retornam quando fechamos os olhos, estendendo as mãos de pesadelo por baixo da cama, depois de um filme de terror assistido corajosamente sozinho na madrugada. Acordar a esposa? Melhor não despencá-la dos sonhos pra esse mundo.

Levanta-se, à procura de papel e caneta; senta-se à escrivaninha.

“Minha filha,
Você hoje é menos que grão — e é mais: é sonho. É alguma coisa sem unidade de medida ou ordem de grandeza — mas é toda uma grandeza só. E cabe aqui. E você sabe onde é “aqui”, não preciso mostrar, apontar ou descrever. Você sabe. E quando enfim for grão, começo do sonho concreto, caberá ainda aqui. E quando for mais que grão, tiver cabeça e tronco, suas perninhas, seus bracinhos… Então, eu e ela seremos juntos seu Pigmalião. E caberá ainda aqui. Sabemos que vai ser difícil sair do seu aconchego, mas quando você sair de dentro dela, continuará cabendo aqui no meu “aqui” — e no dela, que ainda chamo “aqui”, por serem um e o mesmo.
Ah, minha filha, você vai crescer. Vai estudar. Já vai ser o nosso punhado de tudo, mas vai querer ser mais: vai querer ser alguém pro mundo. Se der, vamos pagar colégio caro com gosto e sacrifício, ou talvez você estude num Pedro II. Ah, minha filha. Vai usar meias três quartos e aquela saia azul pregueada, será? Ou aquela marrom do castelinho antigo, quem sabe? Acho que não; são ruínas. Mas o fato, minha filha, é que você vai estudar. Vai usar saias e shorts como as suas colegas, ou as calças justas da moda, é bem provável.
Ah, minha filha. Você vai crescer. Seus seios vão brotar. Vão assoviar pra você na rua, vão olhar pras suas pernas (suas perninhas…). Quando você desabrochar, os olhos dos homens vão te devorar. As mãos dos homens vão querer te tocar, te colher, te arrancar à força. Hordas de falanges vão perseguir você numa avidez meio caótica, mas em movimentos muito militarmente objetivos de alvo traçado. Se suas roupas forem muito curtas, vão te chamar de “puta” e outras coisas, vão dizer que você “Tava pedindo”. Se muito compridas, vão te taxar de “crente”, vão te chamar de “sem graça”, “sem sal” — de “puta enrustida”, quem sabe. Vão te xingar muitas vezes sem motivo, minha filha. Se você um dia se sentar diante de um volante, já vão se sentir no direito.
E se você for boa no que faz, um sucesso profissional estrondoso, se destacar na sua área…? “Com certeza deu pra alguém!” (e normalmente estão falando de algum alguém pra quem ninguém daria…). Mas convenhamos, minha filha, que essa é a maior prova de que você é melhor do que muita, muita gente. De que a sua inteligência ofende tanto quanto quem te ofende. Se for ainda jovem, então… Aliás, perceba, minha filha, que só há meninos gênios, que as moças não têm direito à precocidade intelectual — só à prostitucional, imposta por um sussurro asqueroso no ouvido (seja educada e agradeça, ouviu?) e pelas mãos de pesadelo por baixo da saia aos 12 anos (ou 10? 8? 6?…).
Ah, minha filha… Você vai ser um Cristo, vai ser gauche, vai carregar bandeira — mesmo que não queira. É sua sina. Minha filha, esse mundo não tem piedade, esse mundo não vai te merecer.
Se você correr, se você ficar, se você dançar funk, se você sambar… Os olhos do mundo vão te seguir, te vigiar. Os olhos do mundo vão te comer viva. E algumas mãos vão te alcançar. Você vai sofrer desilusões, minha filha — e vai desiludir também. Aquele(a) não vai te amar. Um(a) outro(a) te quererá, mas você não — e ele(a) não vai te respeitar. Vão cuspir no seu orgulho, no seu afeto, nos seus direitos. Vão querer mandar no seu corpo. Você vai sofrer, minha filha. Vai beber fel e gasolina. Vai chorar, vai cair muitas, tantas vezes. Você vai se trancar no quarto, abraçar os joelhos, um travesseiro ou uma pelúcia antiga e vai chorar, só pra si mesma. Ah, minha filha. O mundo vai te devorar. E o que eu vou poder fazer?
Você vai se levantar. Tantas vezes quantas tiver caído. E é lá que eu vou estar, esperando por você. Estarei lá no chão pra te amparar e te reerguer — mesmo quando eu já estiver sob esse mesmo chão.
Mas um (ou uma), se você quiser, vai aparecer, vai despontar. Vai te abraçar, vai te acolher. Vai te transformar. Segura nesse abraço, você vai voar, minha filha. Você vai voar. Vai engendrar seu próprio grão, quem sabe.
Sabemos que vai ser difícil sair do seu aconchego, mas quando nós sairmos, vendo você sair da nossa casa, você ainda caberá naquele nosso antigo “aqui”, seu lar desde quando você era sonho e a nossa casa, projeto de arquiteto.
Ah, minha filha. Não se preocupe. Não é porque somos teu Pigmalião que te chamaremos “Galateia”. Não queremos te obrigar a repetir e soletrar toda vez que se apresentar a alguém, e nem que você sofra bullying na escola. Não importa que nome você vai ter — até estar escolhido. A partir daí, vai ser o nome mais doce e assíduo que vai viver na minha boca até o fim da vida. Já ouço seu nome florindo meus lábios, polinizando sorrisos — não só os meus, mas o de tanta, tanta gente… Vai ser Malu, Maria, Sophia? Vai se chamar Mel, Cecília ou Valentina? Não sei, minha filha, não sei ainda. Sonhos nunca têm nome, sonhos são vagos — mas têm sempre um sabor muito certo de sublime, de prazer. De sorriso. Isto são as minhas certezas.
E tenho outra. Vão dizer seu nome com tanto amor, minha filha. Muitos vão dizer e sorrir, lembrando seu rosto, lembrando uma graça, lembrando um carinho que você terá feito, quando você por acaso estiver distante. Você talvez faça intercâmbio pra França, talvez more uns anos em Florença, quem sabe não se muda pro Japão? Pode ser que se apaixone por alguém que more na Austrália e vá pra lá de vez; talvez arranje emprego em Miami e nunca mais volte. Talvez não goste nada de viajar, quem sabe nunca saia do Brasil, ou até do Rio. Vai saber, minha filha. Vai saber.
Tudo que eu sei é o que está “aqui”: a semente de amor-perfeito que é já você; o meu grão, enquanto tudo é sonho — e nele, você existe mais que o mundo.
Um já saudoso beijo
Daquele que te sonha.”

Vai se deitar sorrindo; e, tranquilo, dorme, livre dos pesadelos do mundo.

***

*À minha filha, ainda sem nome nem corpo, e à Malu Cruz Luna, cujo corpo tem 1 ano, 7 meses e uma sina.

**Texto escrito a 30 de agosto de 2014.