Primeiras palavras para Olívia

Sua vida vai mudar.

Essa é a primeira frase que você ouve da maioria das pessoas quando comenta que será pai. Em seguida, vêm as perguntas sobre nomes, preferências por menino ou menina, time para o qual vai torcer, qual escola vai frequentar, parto normal ou cesárea, fralda de pano ou descartável, qual será a decoração do quarto.

Na verdade, a vida já tinha mudado quando soubemos naquela manhã de sábado do começo de 2015 que você estava chegando. Ao percorrer os caminhos até chegar esse dia, eu e sua mãe passamos por alguns momentos difíceis, decepções, angústias. Uma montanha-russa de frustração a cada mês que você não vinha. Claro que a culpa não é sua, nunca foi, um dia você entenderá. Todas as coisas ruins ficaram pra trás naquela manhã de sábado, imediatamente após aqueles 2 traços aparecerem no teste que eu acabara de comprar pra sua mãe — o último da farmácia. E o espaço nos nossos corações foi preenchido instantaneamente por um amor intenso, infinito, incalculável. E muitas dúvidas, todas orbitando a partir de um ponto: fazer o máximo para oferecer o melhor pra você, dentro daquilo que poderíamos dar.

Se tudo ocorresse bem (e ocorreu!), teríamos aproximadamente 270 dias para preparar tudo para sua chegada. Nesse período, um mundo novo se abriu pra mim e sua mãe: roupas de bebê, berço com regulagem de altura, armário, carrinho, cadeirinha para carro, fraldas, mais roupinhas, cores neutras enquanto não souber o sexo, o rosa tá liberado depois que descobrimos que você se chamaria Olívia, ultrassom, pré-natal, dois quartos é pouco, mudança para um apartamento com três, brinquedos, mamadeiras, chá de fraldas, feira de gestante, repouso, dores, mais repouso, desconforto, ansiedade. Parece muita coisa, mas foi tranquilo, filha. Sua mãe e eu soubemos distribuir tudo ao longo desses dias para que tudo fosse vivido a seu tempo, com a intensidade que deveria ter sido vivida.

E aí chegou aquela terça-feira com uma das maiores tempestades que Campinas já viu. Havia anos que não chovia tanto, com ventos que chegaram quase a 100km/h. Além disso, havia um caos no atendimento da Maternidade, que estava recebendo pacientes de outros lugares que não estavam mais atendendo gestantes.

E daí você chegou.

Desculpe, filha, mas eu não vou conseguir descrever aqui o que senti naquele 08 de setembro. Tudo aquilo que se vê em programas de TV, novelas e filmes, sobre a beleza do parto e o milagre do nascimento de uma criança… bem, é verdade. O tempo para durante aqueles poucos segundos até ouvir o seu primeiro choro, e depois ele corre loucamente porque tudo é muito rápido: verifica-se se tudo está bem, verifica-se a respiração, os batimentos cardíacos, é uma menina mesmo, linda, frágil, forte; leva-se para a mãe, ela sente o toque do rosto daquela criatura que carregou com tanto carinho e cuidado até poucos momentos atrás, leva-se pra outra sala, registra-se o peso e a altura.

Você nasceu linda, calma, esperta. Nada de ficar dormindo com preguiça o dia todo, você acordava várias vezes com fome, sua mãe te amamentava e você ficava feliz e dormia de novo. A primeira noite contigo nos ensinou uma das primeiras lições: enquanto você dorme, a gente tem que dormir também. Porque você ainda não sabe o que é dia, o que é noite, que a gente dorme 8 horas por noite, que domingo é dia de dormir até mais tarde. Eu e sua mãe ficamos babando sobre você e o quanto você era linda e perfeita e absolutamente incrível. E esquecemos de dormir. Foi divertido, na hora cansou pra caramba, mas já passou. O primeiro banho, as primeiras fraldas, as primeiras roupinhas… você era tão pequenininha! Tudo certo, é assim mesmo, vamos pra casa.

Voltar pra casa com você foi outra experiência indescritível. Quantas vezes eu e sua mãe sonhamos com esse dia, torcemos para que nada de ruim acontecesse, planejamos o melhor caminho, imaginamos como seria sua primeira noite em casa. A alegria era tão grande… mas também ficamos com medo — você chorava muito, a gente seguia o roteiro “comer, trocar fralda, colocar pra dormir” e ainda assim você continuava chorosa, irritada. O que será que estamos fazendo de errado? O que podemos fazer? Vai no Google, pesquisa sobre choro de bebês, a resposta mais recorrente: cólicas. Como prevenir cólicas? O que fazer para aliviar sua dor? E daí a gente descobre o que você tem, nada de cólica, você fica bem, eu e sua mãe ficamos bem, tudo fica bem.

Outra grande lição: a chegada de um bebê também tem sofrimento, privação de sono, preocupação constante. Aquela beleza do nascimento de uma criança que eu comentei ali em cima é só a ponta do iceberg de emoções que eu e sua mãe vivemos contigo. Mas, apesar de tudo isso, a gente ainda consegue entender quando todo mundo diz que vale muito a pena. Porque sim, vale muito a pena.

Tudo isso, e ainda estamos vivendo seus primeiros dias com a gente. Amanhã fará 2 semanas, e ainda temos tanto pra aprender. Você vai nos ajudando todos os dias, com seus jeitinhos, seu choro diferente para quando está com sono ou com fome ou está com a fralda suja e precisa de novas. E eu e sua mãe vamos aprendendo, fazendo nosso melhor. E amando você, desde o primeiro instante, intensa e eternamente.

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