A poça

no primeiro dia, foi como um raio. nem xangô me livrou do arrebatamento daquele clarão de luz no meio da minha terça-feira. depois vi uma poça d’água debaixo do lábio, dessas que a gente pisa, se enfurece, mas acha graça. o calor abafado dos dias que se seguiram me fez ver uma centelha de sol do lado oposto da poça. deixei atravessar minha retina, sem óculos escuros e minha pele, sem filtro solar. voltou a chover, choveu muito, chovi muito, até que pudesse rever a centelha, dessa vez mais de perto. era de noite e vi umas estrelas no céu da boca também, junto com a risada que fazia o som de pedras jogadas na poça, aquela abaixo do lábio. deixei as gotas da poça respingarem em mim, não me importando com a lama que sentia vir junto. quando resolvi engolir algumas estrelas do céu daquela boca, o tempo de repente nublou. sem raio luminoso, sem abafamento, sem qualquer precedente térmico que servisse de anúncio. 
o raio não tornou a cair perto de mim, nem o sol tornou a me queimar. as estrelas, engoli todas, e as que eram cadentes às vezes me passeiam por dentro, pra cima e pra baixo, batem nos ossos e relembro do som das pedras.
anuviou.
anuviamos.

(para A.)

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