por mais que o amor seja uma construção diária, o fugaz também é capaz de nos modificar
esbarrei nessa frase tão inquietamente quanto esbarro nas minhas pernas e em pernas aleatórias.
na verdade eu tava procurando críticas sobre esse filme “duck butter” que assisti ontem e mexeu comigo tanto quanto pocahontas mexia quando eu tinha 4 anos. eu me preocupo com a forma como mulheres que se relacionam com mulheres são retratadas em filmes e séries; tenho pra mim que a shane de the l word formou uma geração de lésbicas insuportáveis, assim como o casalzinho de azul é a cor mais quente — eventualmente vou escrever sobre isso. dei play em “duck butter” sem grandes expectativas, na verdade temia ser uma obra fetichista sobre mulheres desiludidas com homens que resolvem passar 24h se lambendo pra ver se “passa”. o que encontrei foi o filme sapatão mais verossímil que já vi na vida, e isso não é necessariamente um elogio. vi em naima muito de mim e da última mulher com quem me relacionei (inclusive fisicamente). sergio, a personagem de nome masculino, extremamente feminilizada fisicamente, mas com uma gama intensa de emoções agressivas associadas à masculinidade é uma manic pixie dream girl quebrada. não consigo imaginar como alguém gostaria de passar 24h com uma mina dessas, aí lembro do mundo lésbico e das suas superficialidades e estereótipos — também pretendo escrever sobre isso.
isso não é uma crítica cinematográfica, então vou ao ponto: a formalidade dos flertes é tão cansativa e isso leva duas mulheres a mergulharem uma na outra sem boia e sem pé-de-pato. o conhecimento sem freio e sem filtro da outra essência humana também é exaustivo, o que torna a experiência um desastre. nessas horas que passei bamboleando o filme na cabeça, intercalando com minha própria vida, só faço me perguntar: existe equilíbrio?
meu último embrião de relacionamento me deixou com uma sensação torta sobre o tempo. em dado momento, ela me disse que não considerava a frequência com que nos víamos intensa, apesar do tempo da relação. já a minha percepção era outra: eu via ela demais pra tão pouco tempo de convivência. embora não tenha sido esse choque de noção cronológica o estopim pro final, que eu atribuo ao fato de ela ter me usado pra estancar o sangue da ferida que uma traição passada deixou e que, quando curada, só restou a ela me arrancar igual o band-aid que eu era, a lama da combinação horas-dias-meses ainda me cobre até o pescoço e m.e faz nunca mais querer me relacionar de novo. “duck butter” me deixou desconfortável e claustrofóbica por isso. naima dorme com as mãos apertadas e se perturba quando é acordada. por quem devemos soltar as mãos ao dormir? as formalidades de início de relacionamento são válidas e devem ser vividas? quanto tempo se leva pra conhecer verdadeiramente alguém? e por quanto tempo é natural doer o processo de desconhecimento de alguém?
frequentemente na vida me vejo contando datas da seguinte forma: hoje já faz mais tempo que não nos falamos do que o tempo que passamos convivendo.
o lamaçal que me cobre até o pescoço segue aqui. por isso vejo filmes como “duck butter” por duas noites seguidas e destruo minha vida.
