Exercícios de redação
Personagem totalmente diferente de mim e personagem que fala diferente de mim
Terêncio adorava ter. O quê? Era o de menos. As privações afetivas e sexuais que a vida lhe impusera haviam moldado um homem com apego excessivo às coisas. Comprar compulsivamente, colecionar, roubar se preciso fosse. Desde que conseguisse experimentar a inebriante e fugaz sensação de posse. Naquele dia, como de costume, bajulara o chefe convidando-o para um happy hour em um bar da moda, junto com outros dois colegas para fazer número. Enquanto discorria, com estilo falsamente humilde, sobre as suas pretensas qualidades, Terêncio tinha parte de seu pensamento antegozando a continuação da noite: um passeio solitário ao shopping para comprar gravatas, canetinhas, um celular novo… Nem percebia o quanto o chefe e os colegas se entediavam com sua lenga-lenga sobre capacidade gerencial. Outro hábito irritante que ele tinha era enfatizar algumas palavras sílaba por sílaba.
Assim como sabia ser subserviente, grudento e chato, Terêncio também tinha prazer em humilhar pessoas em condição subalterna. Em especial quando tomava uns tragos a mais como naquela noite, em que misturava cerveja com uísque. Foi o que fez com o garçom, um negro baixinho, de pouco riso, trinta e poucos anos, fala mansa e sotaque nordestino. O homem trouxe uma marca de cerveja diferente, o que bastou para despertar uma chuva de insultos e perdigotos. Durante o piti, a papada gorda de Terêncio tremia como gelatina, enquanto o chefe e os colegas assistiam à cena constrangidos. O garçom, calejado na arte de engolir sapos, levou a cerveja e trouxe outra. Só para ouvir a voz a insistir em tom boçal:
- Mas que porra é essa, baiano? Cerveja quente agora?
Pausa, silêncio que antecede avalanches. O incauto achou pouco e prosseguiu.
- Não sabe fazer direito? Me diz que eu vou lá e pego. Aí vou te cobrar dez por cento, hahaha!
Severino — esse era o nome do serviçal, e nem baiano era — respirou fundo, tal qual monge zen-sertanejo forjado pelas intempéries da caatinga. Em silêncio, retornou mais uma vez com a garrafa para a cozinha. Terêncio deu uma risadinha e olhou em torno, procurando a aprovação nos olhos das pessoas. Só viu desprezo, mas para sua infelicidade, estava habituado a ignorar certos sinais. Sentou e disse aos colegas, em tom alto o bastante para ganhar a antipatia geral no salão.
- Esse lugar aqui já teve mais classe. É só dar espaço pra crioulada que a qualidade do serviço despenca. In-com-pe-ten-te.
Severino chegou bem a tempo de ouvir o comentário. Agarrou o homem pelo colarinho e com um único puxão o levou a cinco centímetros de seu rosto. Parecia ter crescido um metro e meio. Falou com raiva surda:
- Branco fidaputa, da premera vez eu trusse outra marca pruque a do pedido tava em falta. Adispois peguei a mais gelada, lá do fundo do frise, mode agradar o freguês. Pois agora escute só, seu baitola, vou meter essa garrafa no seu cu e tirar pela boca!
Foi um alvoroço. Severino parecia endemonhado, disposto a cumprir a promessa, embora o referido orifício de Terêncio estivesse, àquela altura, lacrado pelo medo. Na mesa, seus colegas secretamente torciam pelo garçom e não fizeram esforço para acalmar os ânimos. Mas logo os seguranças da casa e a turma do deixa-disso apartaram os dois e levaram o homem para os fundos.
Terêncio, tremendo, tentou aparentar tranqüilidade e entabular conversa, enquanto alisava a camisa social amarrotada:
- A gente vê cada coi-sa. Onde eu tava mesmo?
O chefe respondeu no ato, sem perder a fleuma:
- Onde você estava eu não sei, mas sei onde está agora: no olho da rua. Meu pai sempre dizia: nunca confie em quem lhe puxa o saco e humilha o garçom.
Terêncio levantou-se, pálido, tentou gaguejar alguma coisa, mas saiu calado, sob os olhares perfurantes de todos. Nunca mais apareceu na empresa, nem mesmo para esvaziar as gavetas — que estavam cheias de canetinhas coloridas, a maioria ainda na embalagem. Dizem que hoje vive em Arraial da Ajuda. Faz artesanato e cuida da limpeza da casa, enquanto a mulher sai para fazer a vida. Nos fins de semana caminha na praia, suspira e mira o horizonte, pensando em gravatas, celulares, canetas, clipes e borrachinhas perfumadas. Às vezes vai até o boteco da esquina tomar cachaça e ouvir música baiana, que adora. Só não suporta quando toca a da boquinha-da-garrafa.
Seara/Floripa, setembro de 2008