Adelina Pereira Lopes

A Adelina Pereira Lopes deixou-nos ontem aos 92 anos de idade.

Lembro-me dela me fazer um doce na sua cozinha com os frascos azul bebé, que eu achava a cozinha mais bonita do mundo.

As vicissitudes familiares e a distância geográfica mantiveram-me longe quando era não era senhor do meu nariz; a imaturidade e a incapacidade de lhe abrir o peito confirmaram essa distância na vida adulta, mesmo sabendo sempre que estava bem e conhecendo as suas histórias pela mão do meu pai e do meu irmão e fazendo promessas constantes de visitas que nunca se concretizaram.

A Adelina partiu sem me ter posto a vista em cima há um bom par de anos.

Sou ardiloso e consigo sempre arranjar uma desculpa egoísta para justificar a minha ausência para com o outro, excepto no caso da Adelina. Nem com ficções lá vou.

O tempo que passei no sofá de um psicólogo não foi suficiente para chegar a esse assunto, mas ainda um dia perceberei porque é que decidi fechar a porta à Adelina e só à Adelina. Provavelmente foi a saída fácil, por ser mais frágil, mais distante, mais difícil de contactar — possivelmente uma revanche por uma birra de puto que não lhe era dirigida, ou só por preguiça, ou só por egoísmo, ou por não ter mais espaço nas preocupações — o que não é mais que a soma de todos os pontos anteriores.

A Adelina foi suficientemente amada por outros para não se preocupar com isso, gosto eu de pensar. Gostei em tempos também de pensar que a minha indiferença era igualada pela sua. Mas conheci-a o suficiente para saber que a sua doçura a colocava acima disso. E a doçura da Adelina merecia um destinatário mais capaz. Eu podia e devia ter estado mais presente, claro. Não há volta a dar, e eu sempre soube disso.

A Adelina já não se preocupa com estas coisas, mas continua a servir de testemunho de como no meio de tanta pretensa racionalidade e sentido de justiça fui capaz de cometer o maior dos pecados e não conseguir sequer explicar porquê. Este fardo atei-o eu e sozinho o carrego de bom grado.

A Adelina era minha avó, mãe do meu pai, e partiu ontem para pastos mais verdejantes. Continuará a fazer-me o favor de me ensinar sobre mim mesmo, agora um bocadinho mais longe.

Um beijo do teu neto de merda, Avó. Perdoa-lhe se tiveres essa disponibilidade.