Fim de ciclo, início de aventura.

Uma reflexão monológica sobre 2015 e o lançamento de 2016.

Não tenho por hábito fazer grandes reflexões de fim de ano, por não ter por hábito viver a vida pelo calendário. Costumo mover-me por projectos, missões, problemas a resolver… E esses raramente empatizam com as balizas artificiais dos dias e dos meses.

Este ano — por força do necessário fecho de contas do primeiro ano da EVERY e em nome da transparência que defendo — a história é diferente, e a análise ao que de bom e mau foi feito nos últimos doze meses torna-se relevante.

TL;DR

Lancei-me numa tentativa de estabelecer-me por conta própria com vários objectivos, uns mais difusos que outros.
À já antiga vontade de criar um projecto de consultoria digital focado em problemas concretos de clientes e parceiros, livre dos constrangimentos e barreiras que as agências habitualmente desenvolvem — pela dimensão das suas estruturas, pela dispersão de papéis, pela necessidade de gerar negócio — juntava-se a ambição de usar a vertente comercial para sustentar uma presença cada vez mais próxima das ONGs e do associativismo nacional e constituir um braço tecnológico para as muitas iniciativas sociais e cívicas que vão surgindo pelo país.
Havia ainda o desejo de tirar do papel alguns projectos pessoais — sobretudo aplicações móveis de diferentes dimensões e ambições— como forma de tentar assegurar pequenos fluxos financeiros no longo prazo.

A primeira aprendizagem do ano terá chegado por volta de Março e, obviamente, consistiu em perceber que há limites à quantidade de baldes que podes carregar — e se não queres deitar nenhum fora, tens que aprender a deixá-los num canto e a levar um de cada vez.

Os últimos quatro meses do ano foram muito complicados em termos pessoais e familiares, tendo a EVERY ficado largamente em segundo plano. O fim do ano chega com alguma estabilização e com a promessa de canalização de energias de volta para a marca, que mais que um negócio… É a consolidação de um posicionamento social e político muito pessoais.


O negócio

O súbito fluxo inicial de projectos por parte de um cliente foi o grande impulsionador para esta tentativa, mas esse fluxo terminou tão cedo como começou e obrigou-me a dedicar (muito) mais tempo à vertente comercial do projecto do que gostaria.

A EVERY — que é uma marca de ENI, não uma empresa — chega ao final do ano com um nível de facturação irrelevante numa análise empresarial, mas simpático em termos individuais. A facturação líquida mensal média foi igual ao melhor vencimento que obtive ao longo da carreira, permitindo manter um nível de vida confortável.

O fluxo de trabalho foi constante ao longo do ano, com alguns projectos de monta (de que o site da BMW Portugal — desenvolvido sob a batuta da Normajean — é o melhor exemplo) que constituem um bom cartão de visita e ajudam a credibilizar uma oferta que pode causar receio por ser one-man-show. Não foi feito qualquer esforço de comunicação para lá do lançamento muito low-profile do site, e todo o negócio chegou através de clientes anteriores à marca ou bate-boca.

Julgo ter vivido à letra duas das premissas que defendo no site da marca, relativas à colaboração com clientes e parceiros. Atrevo-me aliás a afirmar que esse espírito de serviço foi a pedra de toque do primeiro ano de EVERY — em projectos que foram desenvolvidos muito para lá do inicialmente previsto por forma a maximizar a sua relevância, por uma preocupação constante em assumir a camisola do parceiro perante o cliente e pelo sistemático secundarizar das questões financeiras. Espero que clientes e parceiros como a Normajean, BMW, Gravidade, BeNext, Anis ou Duda possam atestar desta postura.

O ponto alto terá sido conseguir ajudar um cliente a montar o seu próprio site através de ferramentas tecnológicas e consultoria estratégica de conteúdos, por sentir que havia uma ideia muito clara e certeira do que esse site devia ser por parte do cliente. A factura saiu reduzida, mas a relação com o cliente e com a verdade do negócio ficaram fortalecidas — e o cliente sai reforçado com a efectiva propriedade do seu site e com o conhecimento necessário para fazer crescer a sua presença online.

Como nem tudo foram rosas, há que salientar e digerir a percepção de que esse espírito de serviço foi por vezes um obstáculo à boa condução dos projectos e causa de frustração pessoal — por sentir que alguns projectos não respeitaram as melhores práticas do meio digital por falta de capacidade de impor uma visão qualificada, e por sentir que a entrega abnegada não teve correspondência por parte do parceiro / cliente.
Sendo a EVERY largamente definida pela ausência de filtro entre os campos pessoal e profissional (a empatia foi desde o início uma moeda de troca efectiva), essa frustração chegou em alguns casos a criar rupturas definitivas com alguns clientes e parceiros, sendo o exemplo mais gritante o término por minha iniciativa da colaboração com um cliente que representou mais de 50% da facturação anual. Os dados financeiros posteriores indicam, felizmente, que essa perda poderá ser colmatada.


A intervenção social e cívica

Este é o vector de actividade que considero mais relevante para a marca, e onde quero colocar maior foco em 2016.

Há uma dissonância cognitiva entre o trabalho realizado durante o ano e a visibilidade do mesmo.
A colaboração com ONGs resumiu-se a um fracasso completo, na medida em que não há resultado visível desse esforço — muito embora tenham sido lançadas bases interessantes para o novo ano.

A Terra dos Sonhos — parceiro privilegiado de sempre — continua a não ter mais que uma implementação pálida de Salesforce para melhor gerir as suas operações, mas está na calha como primeira participante na plataforma Grafeno, que ambiciona dotar as organizações sociais de ferramentas de gestão, transparência e comunicação com o público.
Através de um sistema de implementação automática de software CiviCRM como espinha dorsal de uma presença estratégica sólida no espaço online — com mecanismos de recolha de donativos, angariação de voluntários, gestão de projectos e presença institucional online. Janeiro já será palco de implementações concretas!

As restantes colaborações com o sector — Verde Movimento, Umas Horas Pelos Outros e Compra Solidária — tiveram pouca repercussão na sua missão ou foram infrutíferas, se bem que em nenhum dos casos a razão desse insucesso possa ser imputável à EVERY. No último caso, acalento ainda a esperança de constituir um parceiro válido para o ano que se avizinha.

Referência para o projecto Fio — uma ferramenta de videoconferência com legendagem automática, tendo como alvos a população sénior e os deficientes auditivos — cuja versão 1.0 deverá estar pronta muito em breve, e também para a plataforma de e-mail marketing para ONGs Mailunit, que já está em uso controlado há alguns meses e prepara-se em breve para o seu lançamento público.

No campo das ferramentas de participação cívica, este ano foi também de aprendizagem sobre as boas práticas internacionais.
Há varias ferramentas em desenvolvimento e adaptação à realidade portuguesa, como uma implementação local Airesis para disponibilizar ao público como ferramenta de organização de movimentos políticos, uma plataforma de diálogo directo entre cidadãos e políticos que, espero, possa ser já uma realidade na campanha eleitoral presidencial, e muitas outras ideias — algumas como suporte do meu projecto paralelo Metagoverno, cujo lançamento e disseminação já tarda e muito por falta de investimento pessoal.

O novo ano trará também uma abordagem no sentido de fornecer ferramentas de interacção com constituintes a organismos públicos — numa perspectiva de negócio mas também como sublinhado ao posicionamento EVERY de fomentar transparência e diálogo entre as partes.


O desenvolvimento de produtos

O grande fracasso do ano, não só pela ausência de avanços significativos no desenvolvimento de produto próprio (tendo arrancado duas propostas que estimo terem muito potencial) mas sobretudo pela falha em entregar aos parceiros e amigos com quem partilhei projectos.

O ano foi muito exigente em termos pessoais e o negócio foi bem sucedido mas prejudicou muito a disponibilidade por inexperiência e excesso de flexibilidade minhas, tendo sido forçado a empurrar o resto para outras calendas e a defraudar as genuínas expectativas daqueles que comigo se comprometeram a título pessoal. A eles, as minhas sinceras desculpas.

Agora que a vida vai lentamente retomando o seu rumo tenciono também retomar os contactos e os projectos que ficaram em águas de bacalhau, na certeza de que a amizade e confiança em mim depositadas tardarão mas não falharão a ser recompensadas.


O segundo ano da EVERY começa tão cheio de incertezas como o primeiro. Sem clientes fixos, sem um nível de facturação que permita pensar muito para lá dos próximos 3–4 meses, sem produtos próprios no mercado… Mas com dois trunfos: um antigo, que é a coragem de viver sem ordenado fixo. E um novo, que é a aprendizagem acumulada de um primeiro ano cheio de altos e baixos.

Em 2016 o desafio é conduzir o negócio e não ser conduzido por ele: concretizar a visão inicial da marca e investir mais tempo nesse objectivo; saber dizer que não quando faz sentido; focar o trabalho comercial em projectos sensatos e rentáveis; continuar a rejeitar a expansão e a transformação em agência (há para esse efeito projectos muitíssimo bons no mercado); tentar fazer mais parte da indústria resistindo à tentação de participar na feira das vaidades.

Arrancar dentro de 10, 9, 8…