Encontro com um girassol

Encontrava-me boiando a alguns metros da areia, os olhos fixos num céu azul sem nuvens e as pontas dos dedos levemente ancoradas na areia. A poucos metros de mim, Alina se divertia como uma criança, nadando pra lá e pra cá por aquelas águas serenas. Mais além, o que se abria era uma praia preciosa. Selvagem, de beleza rústica e quase deserta. Quilômetros de um mar escuro, brando e grandes extensões de areia fina e branca, coberta por uma infinitude nunca antes imaginada de conchas e búzios. Estávamos no extremo leste da Romênia, num pequeno vilarejo chamado Sfantu Gheorghe, o local onde as águas do Danúbio se encontram majestuosamente com a do Mar Negro.
Eram às cinco da tarde. Horário em que partia o último “transporte público” de Sfantu Gheorghe: um Jeep 4x4, adaptado com uma carroceria de madeira. Um pouco mais de três quilômetros separam a praia do vilarejo e por isto quase todos os banhistas corriam, apressados, para retornar de carona. Preferimos contrariar esta afobação:
“Nem se preocupe, voltamos a pé”, disse Alina, abrindo um daqueles sorrisos que só ela sabe dar. “Vamos ficar mais.” Eu concordei: o sol não demoraria a se por e deixar aquele lugar era a última coisa que queria no momento.
Ficamos ali, na areia, acompanhados apenas de alguns sombreiros de palha e das gaivotas gordas que abriam as frutas silvestres com o bico para depois se fartar de polpa. Ao longe, um casal de namorados caminhava de mãos dadas até se perder no horizonte. Eu estava divagando em pensamentos quando a voz de Alina me trouxe de volta à realidade. “Quero caminhar um pouco. Você me acompanha?”
Andamos alguns metros à beira-mar até nos deparar com uma cena inusitada: no meio da paisagem, enraizado na areia, encontrámos um solitário girassol. Inclinado, na praia, ele parecia meditar, admirando o momento precário e fugaz. Como ele chegou até ali? O que fazia sozinho no meio da areia? Quais eram suas pretensões? Preferi conservar a curiosidade e não fazer perguntas. Teria sido falta de educação interromper o seu estado de contemplação com questionamentos bobos e irrelevantes.
Enquanto Alina corria para dar um último mergulho, sentei ao lado do meu novo amigo. Era um girassol esplêndido! Fiquei a olhá-lo atentamente. Tinha mais ou menos um metro e meio e suas raízes roxas se agarravam na areia. As pétalas balançavam com a brisa do mar: longas e amarelas. E aquilo era alegre e tinha uma beleza sábia e imprevista.
Ficamos ali juntos, em silêncio. Não havia sinal de qualquer outra flor ou de como ele havia chegado tão longe. Talvez este girassol fosse um místico ou um ermitão. Mas, não como solitário triste que buscou se isolar do mundo exterior; e sim como um ser que encontrou na solitude, a profundidade e a lucidez necessária.
Graças ao girassol me peguei pensando na relação contraditória que temos com a solidão. Por um lado, ela esta identificada, desde Antiguidade, com o sublime e o sagrado. Por outro lado, desenvolvemos uma espécie de pânico ao silêncio calar e ao estar sós; enchemos o espaço de ruídos, estímulos, divagações, smartphones e conexões virtuais.
Lembro-me haver lido recentemente um artigo sobre como o silêncio se converteu numa indústria: muitas pessoas estão dispostas a pagar um bom dinheiro por um aspirador totalmente silencioso ou viajar num avião que não emita sons. São como aqueles produtos que se vendem atualmente pelo que não têm — glúten, açúcar, corante, plástico … e agora ruído. O silêncio está sendo convertido em um artigo de luxo.
O girassol havia crescido na areia e por causa disso esteve sem a companhia de outras flores durante toda a sua vida. Muitos poderiam enxergar tristeza e melancolia nesta imagem solitária … mas não era precisamente esto o que eu sentia. O girassol não estava sozinho; ele somente estava. Ali. Presente. Sem mais. E aquilo era o sossego e a concordia.
Era como se o girassol falava comigo. Não com palavras, mas com um silêncio que ia além das palavras. Existe um calar que procede do não saber o que dizer. Porém, há também outro silêncio que provem do haver tanto o que dizer que é necessário emudecer para que seja outra voz a que fale.
Alina havia regressado da água e o céu foi mudando gradativamente de cor a medida que o sol desaparecia no horizonte. Ela perguntou o que tanto falávamos, flor e eu; “nada”, respondi. O essencial, em definitivo, não era o que dissemos um ao outro, mas aquilo que não havíamos dito e que, no entanto, havia sucedido e era real.
Seguimos lentamente, Alina e eu, o nosso caminho de areia. Era a hora de nos despedir de Sfantu Gheorghe e daquele belo girassol que havia aprendido que estar em silêncio e sozinho, algumas vezes, é descobrir-se acompanhado de todo o universo ao nosso redor.







