“Como falar de amor” ou “os versos que sempre cantei mesmo antes de saber que existiam”

(Esse texto é todo baseado na canção “Como falar de amor” de Ghetto ZN e Sant. Recomendo que ouça o quanto antes ou enquanto lê, se o texto ficar mais longo que a música, ouça mais de uma vez! Vai na que tô dizendo que é A , boa!)

Eu nem me lembro a primeira vez em que falei isso, quando “como é que eu vou falar de amor se…” foi realmente um problema, mas as últimas eu lembro bem:

  • Uma há exatamente um sábado a noite: eu tinha que terminar um esboço pra exposição de Gn. 31 domingo de manhã quando ouvimos uma gritaria absurda e o sangue no asfalto. Entre ligar pra ambulância, outras pessoas passando mal de nervoso, uma bíblia aberta, gritaria e o pensamento: “E agora? Como é que eu vou falar de amor?” Aquela foi uma madrugada longa…
  • Há dois meses, também numa noite de sábado uma notícia de que alguém da minha idade, que cresceu comigo, tinha meu sangue e faleceu por um motivo que nem existia (como se fosse existir algum, enfim…) de manhã, uma celebração emocionante de ceia na igreja.

A sensação é de -ao mesmo tempo — sentir a graça de Deus de um jeito quase palpável e de sua carne, corpo, memórias gritarem em todas as suas células de que ali não era seu lugar. A história parece querer gritar isso! Dá pra citar outras, mais leves, mais pesadas, mais antigas… a questão é essa dualidade estar presente na minha vida e na de muita gente desde antes de se poder notar e talvez até depois das das cognições irem embora.

“Como falar de amor” bateu no meu ouvido que nem um overhand e logo de cara ouvi umas quatro ou cinco vezes. Os caras fizeram uma pergunta que eu me fazia o tempo todo mesmo sem saber e querer. A pergunta traduziu minhas lágrimas de anos que muitas vezes vinham sem palavra alguma.

Quantas vezes orei a Deus sobre isso?! Ter de sair de uma realidade transloucada, onde tudo tá fora do lugar e entrar numa igreja pra falar de amor e de um Reino de paz e alegria parecia a maior contradição existente! Parece que eu tinha que ter um disjuntor na cabeça pra trocar de modo, uma coisa não se encaixava na outra!

O paradoxo de estar discutindo filosofia, literatura, teologia 20:00 e ter que dormir na casa dos outros por não poder entrar em casa no meio de um tiroteio 22:00, de estar conversando sobre os pais da igreja deitado num colchão no quarto dos meus pais enquanto rolava confronto na frente do meu portão por muito tempo foi motivo de vergonha. Durante anos senti que seria impossível me enquadrar em certos locais ou situações sem entender a verdade dos fatos. A real é que mesmo agora não consigo exatamente sistematizar tudo, mas depois de ouvir esse som, deu pra a ajustar algumas coisas.

Certas questões só se entendem de perto! Faculdade, livros, textos não vão te ajudar a compreender algumas realidades! Eu mesmo talvez não compreenda tão bem por sempre ser um cara muito caseiro (e ter me livrado de algumas furadas por causa disso!) mas vi e vivi muita coisa. O paradoxo criou certas complexidades no olhar, na cosmovisão mesmo…

Dessa última vez, depois de orar bastante e de uma boa madrugada silenciosa, a certeza de que o “Como é que eu vou falar de amor?” foi uma das melhores perguntas que poderia fazer pra Deus. A resposta não veio com raios, trovões, mas da lembrança de um versículo:

E disse-me: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo. 2 Coríntios 12:9

Poder chegar diante de Deus e dizer sem demagogia que “eu não consigo falar de amor assim!” é libertador! As circunstâncias por (muitas) vezes derrubam e cair não é um problema em si. Talvez o problema (meu, de alguns pastores, líderes, pregadores, músicos, artistas, professores) seja achar que dá pra ficar de pé, traçar um caminho e andar por si só e aí a vida fica incongruente. Aí o background pesa, o contexto te engole e a perspectiva me escapa os olhos.

Tipo Pedro, que olhando pro mar bravio se esquece do Deus que o sustentara de pé sobre as águas, cai e começa a se afogar, quando de repente vem a mão de Cristo e o resgata. Após isto, fica claro o ponto principal desse texto: talvez nos falte fé pra andar sobre as águas, mas a Deus nunca falta humildade e graça pra cruzar o mar num barco com a gente.

O som do Ghetto (que sempre vai ser um maluco digno de todo o me respeito, um cara que já trombei em muita correria nos Japeri da vida e hoje me inspirou a escrever isso aqui) termina com ele e Sant dizendo: “Nem sei como eu tô vivo!”

Essa frase ecoa na minha cabeça toda vez que ouço! Quantas vezes depois de receber a notícia de que alguém que eu conhecia, trocava ideia ou cresci junto tinha sido preso ou morrido, me peguei refletindo sobre isso?! Sempre fui muito nerd, curtia meu pc e meu violão, meus sons dentro de casa e tal, mas a sombra que passava sobre mim numa situação dessas era de que se eu tivesse feito uma ou duas escolhas erradas poderia ser eu ali, preso ou morto.

De alguma forma Deus me preservou no meio disso tudo e me acolheu! Me deu uma família na fé e a oportunidade de fazer parte de um corpo, de um edifício. Não por mérito meu (longe, distante disso, na verdade!) mas por mérito dEle próprio. A noção do bom e velho papo reto, da sagacidade da vida, da correria dos irmãos que por muito tempo foi motivo de vergonha, hoje é uma das muitas evidências da multiforme graça de Deus, o que — novamente, reiterando — jamais será mérito meu!

Estar entre a violência da rua e a paz da igreja, entre o som alto de um culto e o silêncio desesperador depois da última rajada de um tiroteio. Ter que sair no meio de um confronto pra ir estudar, tocar, pregar… É um dilema do qual muita gente não sai e quem sai pode até sair no corpo, no cativeiro da mente, mas a cosmovisão, as dores, as memórias ficam vivas (e muito vivas)! Foram elas que o Ghetto e o Sant acessaram como quem abre uma gaveta de arquivos e pastas, trouxeram à tona e me fizeram contemplar e perder noite de sono tentando compreender.

Não é um dilema só meu ou só deles, mas de mais gente que se pode contar. Só não tenho a pretensão de falar por todos aqui. Muito mal falo por mim, mas falo com a certeza de quem conhece a eternidade de perto.

Hoje, a resposta de “COMO EU VOU FALAR DE AMOR?!” esbarra na resposta de “POR QUE EU CREIO NA PREGAÇÃO?” que é basicamente:

Porque não é sobre mim, não é sobre o aqui e o agora, mas sobre o Eterno, o Infalível, o Imutável. Faço o que faço como quem não tem nada, mas apenas isso. Como quem não tem um centavo no bolso mas sabe quala cura prum coração conturbado e perturbado pelas ondas da vida. Como quem tem a mente inquieta mas sabe onde buscar refúgio. Como mais um Dimas da história.

Por isso prego: Por que não sei como falar de amor, mas sei quem É o amor e quando prego, quem fala é Ele e eu sou mero espectador.

Valeu, Ghetto! Valeu, Sant!