Púlpitos, ruas e vida.

Martin Luther King Jr é, com certeza, meu maior referencial extra-bíblico de cristianismo. Poderia citar muitos feitos, porém, feriria minha premissa aqui: não falar de nenhum. Pelo menos nenhum em vida. Olhar o humano além do que se faz ou deixa de fazer. Além de seus simples méritos em nossas balanças morais. O maior dos feitos do pastor Martin foi sua vida, seu exemplo. A transcendência de sua vida na simplicidade da imanência presente numa história humana como de qualquer outro.

Lembro de no início dos anos 2000 ouvir falar de um rapper barra pesada chamado “Dexter”. Como sempre fui um garoto curioso, além de curtir o som, fui procurar mais sobre a vida do cara; até me deparar com ele dizendo que após ser preso por uma série de crimes, pegou pra ler a autobiografia do pastor Martin e teve sua vida transformada. Deixou de ser Marcos pra se transformar em Dexter, direito, reto, justo, nome do segundo filho do pastor Martin. Depois de muitos anos de sua morte, Martin Luther King Jr transformava a vida de alguém.

Ele nunca fez força pra parecer sobre humano, falava pra multidões e pregava em sua igreja aos domingos. Por mais que façam força para o canonizar, beatificar ou apenas transformá-lo num ativista que teve visualização, ele foi só um homem. Um homem, negro, pastor, pai, marido que se colocou de pé contra o que era injusto e entregou sua vida por isso. Essa dualidade entre o grande homem e um cara normal que me fez ver nele um exemplo a ser seguido.

Era isso: imanência e transcendência: céu e chão. Enquanto hoje essa discussão se prende a algumas salas de aula de filosofia e teologia, alguns púlpitos de igrejas reformadas sendo faladas com frieza e palavras difíceis, Martin Luther King Jr encarnou os conceitos e os levou pra rua. Ele pôs seu púlpito numa esquina sem deixar de pregar com fidelidade a palavra de Deus.

Seus vícios e virtudes me mostraram que o ser humano é mais que o que querem fazer dele. Esquerda e direita tentam o tempo todo comprar seus méritos, puxá-lo para seus lados e, apesar dele próprio ter suas convicções bem definidas e isso significar algo em sua época completamente diferente do que as pessoas significam hoje, pastor Martin jamais se venderia desta forma. É impossível o englobar numa ideologia política pois sua luta era mais nobre, mais sangrenta e mais humana que qualquer dessas ideologias um dia será. Ele não tentava trazer o céu pra Terra como elas tanto prometem e enganam seus seguidores. Além da militância cega, do ódio bobo e hermético de muitos ativistas e além das belas e vazias pregações dos pastores, ele encarnou o evangelho dos profetas bíblicos como poucos na história.

Aquela bala que atingiu a imanência do ser chamado Martin Luther King Jr o colocou numa nova perspectiva, do outro lado da moeda: Ele transcendeu! Seus discursos e pregações muitas vezes faziam isso, mas agora, sua alma o fez. Os pés que outrora eram tão bem firmados no chão, hoje são pó, mas seu exemplo nos empurra a fincar os pés no chão, o coração ligado aos nossos irmãos e a cabeça no Alto. Essa foi a beleza da vida de Martin Luther King Jr.

Transcendeu sem deixar de ser, falou do céu e do chão com o mesmo afinco, lutou pela salvação de seus irmãos nesta vida e na próxima. Foi um homem como qualquer outro apesar de ser um ideal de vida para muitos, isso é inexplicável, isso é graça de Deus!

Martin Luther King foi um pastor batista, um homem negro, pai de quatro filhos, marido de Coretta Scott King, ativista político na luta pelos direitos da população afro-americana, um dos maiores expoentes da resistência não-violenta, vencedor do Nobel da paz de 1964 ao mesmo tempo em que amava jogar sinuca e escutar jazz. Martin Luther King Jr é ao mesmo tempo, minha maior referência cristã e humana, minha inspiração na luta por uma sociedade mais justa e minimamente equânime com a população negra. Além de tudo, meu irmão em Cristo que descansou depois de combater o bom combate, acabar a carreira e guardar a fé.

Eu? Apenas espero, como ele, ser alguém que pode mudar sua realidade sem deixar de ser um homem normal com seus vícios e virtudes. Encarnar a transcendência e a imanência no dia a dia, fora dos grandes círculos intelectuais, mas nos púlpitos e nas ruas. Nas ruas e nos púlpitos. E assim, superar a mediocridade estética dos meus dias. Como ele muito bem cantou com outros irmãos: “We shall overcome!”

(Mahalia Jackson cantando “We shall overcome!”)

(John Coltrane executando “Alabama”, música composta em decorrência do assassinato de quatro crianças negras numa igreja por membros da KKK em 1963)

Martin Luther King Jr falando sobre a importância do Jazz no festival de Berlin de 1964

Última pregação do pastor Martin, alguns dias antes de morrer, transcrita para português.